MADEIRA NA ROTA DO CHÁ
Fotos: GREGÓRIO CUNHA
Um chá de qualidade servido naquelas porcelanas companhia das índias que Francisco Clode sabe seleccionar com mestria pode muito bem operar o milagre de acalmar a efervescência política. Mas os problemas regionais de fundo que Albuquerque terá de solucionar a partir de agora, esses não vão lá com chazinhos.
A renovação na Madeira está concluída. Há um novo parlamento em funções, há um governo com um programa aprovado e há uma oposição devidamente instalada na Assembleia. Há também um novo estilo cheio de rendas e chá que substituiu o regime truculento dos 38 anos anteriores.
Líderes de oposição saudaram esta manhã no encerramento do debate do programa de governo a nova onda do chá, a que chamam 'regresso à normalidade democrática'. Ornamento de linguagem que, já agora, não atingimos. A nosso ver, a Madeira vive sem democracia desde 1926, quando da queda da I República, essa também uma democracia com muito que se lhe diga. Até 1974, foi o que se viu. Nos 3 anos que se seguiram, não se viveu uma 'normalidade democrática' na Região, mas uma 'legalidade revolucionária'. De 1978 até agora, também foi o que se viu: uma democracia das cavernas. Regresso à normalidade democrática só se for um regresso a 1925.
O que porém tem validade é que, segundo os democratas eleitos, eis então que as nossas ilhas finalmente podem surfar a democracia na rota do chá.
Uma política do charme que, deixem-nos reparar, é diferente da política dos chazinhos.
Na fase em que se encontra a Madeira, a mais difícil da sua História recente, como acentuou José Manuel Rodrigues esta manhã, a panóplia de berbicachos por resolver não se desmanchará com mezinhas e chá preto.
Sejamos objectivos: os problemas angulares do quadro regional pairam na área financeira. Sectores onde o Estado está metido até ao pescoço. Passos Coelho e Paulo Portas fingem-se autistas quando vem à baila a responsabilidade do seu governo na caótica situação financeira a que chegou a Madeira. E aquela gente não descerá do pedestal se Miguel Albuquerque não afinar a voz. Eles continuarão autistas se o presidente da Madeira permitir que o governo regional seja um departamento dos ministérios lá das lisboas, receio aliás manifestado hoje pelo socialista Carlos Pereira.
Mas qual é a dúvida de que deve ser o Estado a pagar o ferry que vier resgatar os madeirenses do sequestro na sua própria terra, de não poderem sair das ilhas por via marítima?! Mesmo que deputados como Carlos Rodrigues, do PSD, não se tivessem batido ao longo dos debates por essa obrigação dos governantes alfacinhas, trata-se de um imperativo que devia dispensar discussão.
Os ilhéus, ao contrário dos transmontanos, beirões ou algarvios, não conseguem sair da terreola de carro, comboio, triciclo, skate, patins...
Albuquerque lembrou hoje que não é grande apreciador de consensos. Que prefere o parlamentarismo e a dialéctica política do debate de ideias. Pois é com esse espírito que deverá, em nosso modesto entender, tratar com o seu amigo Passos Coelho dos assuntos que interessam à Região. O chá fica para o pôr-do-sol, hora de actualizar as conversas mundanas entre ambos.
Depois de 20 anos à frente de um executivo municipal como o do Funchal, Miguel Albuquerque tem obrigação de saber liderar uma equipa. Um governo a uma só voz. Debater internamente os assuntos, mas, uma vez encontrada a linha de actuação, a posição oficial é uma. Temos já uma prova de que o novo chefe não abdica desse procedimento. Pimenta de França, que parecia 'de pedra e cal' na IGA, continuando assim na nova orgânica, foi mandado 'despedir' pelo presidente. França terá entendido mostrar força e carisma, mandando para fora, via jornais, decisões suas mesmo antes de o governo ter o seu programa aprovado. Albuquerque tratou pessoalmente do caso: substituição imediata na IGA.
Será esta determinação aplicada nas discussões com Lisboa? E mesmo com situações delicadíssimas que há para resolver aqui ao nível doméstico? Os partidos da Oposição, fora PP e JPP, não dão a Miguel Albuquerque o benefício da dúvida. Dionísio Andrade, Roberto Almada, Edgar Silva e José Manuel Coelho mostraram-se indisponíveis, ao longo do debate, e repetiram-no hoje, para entrar no bote.
Votaram contra o programa de governo, pois. Como o PS. Já o PP absteve-se. Amizade com Portas obriga. O JPP também se absteve, mas por decisão própria, assumida. Os emergentes políticos da camisola verde estão a jogar longe. Élvio Sousa, Carlos Costa e até Filipe Sousa, chefe autarca de Santa Cruz, sabem muito bem o que querem. Não têm pressa nenhuma para onde vão. Há 5 elementos que, apesar de caloiros no parlamento, não estão nada ansiosos pelo tempo das amoras maduras. E quem não entender esta linguagem que peça tradução a um gaulês.
Os deputados do PND, BE, CDU e PTP abordaram hoje situações que os secretários garantiram várias vezes nestes 3 dias que não irão acontecer, casos do fecho de escolas, extinção de postos de saúde, despedimentos na Função e por aí fora. Repetitivo. Juízos de valor. Estiveram melhor ao denunciar que o novo governo regional prometeu grandes feitos sem dizer como os conseguirá concretizar. O Jornal da Madeira, a baixa do IRS, o abate da dívida, a baixa de tarifas aéreas, a baixa de preços nas viagens para o Porto Santo, a linha marítima de passageiros e de carga com o Continente. Carregar nesta ferida dói mais.
Foi por isso, julgamos, que Miguel Albuquerque saiu um pouco do seu registo sereno quando, na intervenção de encerramento, abordou a questão dos transportes marítimos. Os olhos brilharam mais, as faces coraram e a voz saiu inflamada ao fazer questão de deixar muito claro que o projecto deste governo de estabelecer a linha com um ferry "vai mesmo para a frente dê por onde der". É que, explicou, a sua equipa executiva nada tem a ver com os 'lobbies do sector'. E quanto às viagens para e do Porto Santo, os preços também vão baixar, afiançou. Não descansará enquanto não conseguir esbater a sazonalidade que mantém a ilha numa crise dolorosa.
Albuquerque não terá vida fácil.
Numa indirecta ao antecessor, prometeu acabar com o mito de que a agricultura e as pescas "não dão nada". Dão, sim, é questão de aplicar a política correcta, afirmou por outras palavras. O que passa, desafiou novamente, por medidas já anunciadas com saliência para a formação profissional, apontada à empregabilidade e não aos interesses dos lobbies dessa área, das empresas e dos formadores.
O presidente reiterou metas referentes às várias pastas do seu governo, abordadas nos 3 dias de debates. A baixa do IRS para famílias de baixos rendimentos, já em 2016, é uma delas. Insistiu em algumas questões que avançarão rapidamente, mas sujeitas a consensos no quadro parlamentar, casos do novo hospital, regime fiscal da Região, revisão dos juros da dívida junto dos partidos do arco governamental nacional e as demais matérias que, para Miguel Albuquerque, estão acima dos interesses dos partidos.
A maratona idílica do miguelismo está concluída. O extasiante empate técnico nas internas de 2012, perante o campeão da Madeira Nova, está no baú, para contar nas memórias. O romance da corrida de delfins também se vai esfumando nos arquivos, embora sem a certeza de que não haverá uma sequela qualquer do apaixonante enredo, porque os deuses da política são insondáveis. A vitória hitchcockiana de 29 de Março também ficou para trás. E agora? Agora é preciso governar. E não serão duas demãos nas paredes das Angústias ou a doçura da 'sissi' a proporcionar 4 anos de vida tranquila ao novo chefe. Não se resolvem problemas de pobreza extrema, desemprego incontrolável, emigração forçada e uma arrepiante dívida com paninhos quentes. Ou com chazinhos.