O PS-M ANDA NO AR ÀS
VOLTAS
E A GASOLINA A FALTAR
Carlos Pereira parece não perceber que devia começar a pensar em descobrir uma nesga no solo onde aterrar sem estragos fatais. E já vai tarde.
Cada vez me convenço mais de que toda a equipa de dirigentes do Partido
Socialista na Madeira, ou seja, a dupla Carlos Pereira/Jaime Leandro, anda nas
nuvens sem uma noção aproximada do que se passa cá em baixo. Desde logo, este
PS dá ares de estar na posse de algum estatuto especial pelo facto de os
camaradas nacionais serem governo em Lisboa, apoiados numa geringonça
tem-te-não-caias.
É verdade que o efeito nacional influencia de algum modo os cenários
políticos regionais, mas não chega fazer de cigarra principalmente quando o
Inverno está perto.
O presidente e o secretário-geral do PS-Madeira não se dão conta de que lá
foi o tempo em que o partido, então de esquerda moderada salpicada de
necessidades radicais - e não de puro centro como o actual PS - dispunha de
cerca de 20 deputados no parlamento regional. Isso foi há muito. O PS ocupa
neste momento o 3.º lugar na ALM, ex-aequo com o JPP, cada qual com 5 assentos,
atrás do PSD (maioria absoluta pela tangente com 24 deputados) e do PP, com 7.
Quanto a Câmaras, há 3 PS: duas que já o tinham sido (Porto Santo e Machico) e
outra em estreia (Porto Moniz). Há duas que contaram com o apoio do PS, formal
ou tácito (Santa Cruz e São Vicente). E há o caso da capital, bastião laranja
finalmente derrubado por uma coligação liderada pelo PS e com um candidato
escolhido pelo ex-chefe socialista Victor Freitas.
Mas quanto vale eleitoralmente o Partido Socialista na Madeira, hoje?
É isso que Carlos Pereira e Jaime Leandro não querem descobrir. Assim como
fingem não reparar como estão cada vez mais isolados no partido. Porque o líder
se virou para Lisboa, onde fala muito para as estatísticas de São Bento,
reduzindo a liderança regional a umas reuniões despovoadas por aqui e por ali.
Sem que o líder queira ouvir ninguém. Avisando até que todos terão de se
habituar a isso, porque ele vai continuar assim.
Arrogância é algo que não atrai votos. Nem sequer apoios internos. O resultado
é que não se vê actividade em nenhum sector do partido. Não há uma concelhia
que se mexa em apoio à liderança. Onde pára a JS? Há quorum nas reuniões da
Comissão Regional? Ainda na última, ao findar da passada semana, viu-se aquela
caricata conferência de imprensa, numa mesa onde Carlos Pereira, Gil França e
Carlos Jardim se apresentavam muito solenes, semblantes marciais, como se
fossem anunciar um golpe de estado e o recolher obrigatório, uma afectação
grotesca, para dizer o quê? Para 'anunciar', se calhar como obra sua, os 80
milhões de euros que António Costa desbloqueara conforme promessa pós-incêndios
e como é dever do governo central. O 'anúncio' à noite do que já se sabia desde
a tarde, da discussão em S. Bento.
O povo já não se impressiona com isso de um sujeito dizer que falou com
políticos de Lisboa.
Carlos Pereira tem instinto quando funciona nos meandros
económico-financeiros da vida colectiva, o que é uma grande vantagem num
político que quer governar. Mas falta-lhe outro instinto, perversamente mais
importante, que é o instinto político. Bons tecnocratas a falar alto e rápido
há muitos. Bons políticos que falem para o povo entender são uma raridade.
Carlos Pereira até detém capacidades para, no meio da crise que
atravessamos, mostrar ideias quanto a fazer crescer a economia, porque é a
partir daí que vem o emprego, o arrefecimento da pobreza e da emigração
forçada, o acesso mais fácil dos jovens à universidade e das pessoas em geral à
cultura. Mas Carlos Pereira fica o tempo todo a falar do offshore, do PIB, da
dívida, do cashflow, da troika e dos avisos dos falcões do rating.
A política é contas. Mas é mais gente. O dinheiro urge? Desenrasque-se, não
fez tropa?
Pois. O líder do PS-M perdeu as pequenas coisas da mão, aquelas que fazem
cunha na trave-mestra da luta política, e agora está com muito pouco tempo para
recomeçar a caminhada, criando onda.
Carlos Pereira conta com uma realidade que está à vista de todos: a
fragilidade do governo regional e a fragmentação iminente na camada fina de
gelo onde assenta o PSD-M. Mas isso de ficar à espera que o adversário falhe
raramente dá bons resultados, como nas competições desportivas. Mais a mais
porque, na política de hoje, levanta-se uma pedra e saltam uns poucos de
concorrentes. Ou o pretendente ambicioso se faz à estrada ou acaba espezinhado
pelos que vêm atrás. É uma questão de tempo.
Ainda por cima, esta linha PS-M, constituída hoje em dia por dois
elementos, tem um handicap imprevisto no caminho: o desequilíbrio que
Paulo Cafôfo está a provocar na política funchalense, com ondas a espalhar-se
já no tecido regional - político e popular. É que o efeito Cafôfo não ameaça
afectar apenas o outrora poderoso PSD, a começar pela eleição no Funchal daqui
a um ano. É esta Direcção do PS que também está em risco.
Não acredito que os dirigentes do PS não tenham percebido ainda que o
centro da oposição regional se está a transferir para os Paços do Concelho,
incluindo muitas vontades internas do partido.
Então esta Direcção do PS não está em risco?
Paulo Cafôfo não só afastou da Câmara - aliás por processos condenáveis -
elementos que valeram muitos votos à coligação que o catapultou ao cargo.
Cafôfo, uma vez eleito, disse claramente que, a partir de então, os partidos
não iam mandar na vereação. E sem mais aquelas, aliás legitimamente, trancou-se
lá dentro a conhecer os cantos à casa, sem telefonar para ninguém, sem aceitar
conselhos de ninguém. Victor Freitas sabe disto. Carlos Pereira sabe disto
melhor do que eu. A dura realidade para o PS é que o resultado do actual
presidente da Câmara em 2017 não dependerá nem um bocadinho do apoio ou
desapoio do PS. É igual ao litro. Cafôfo candidata-se e se o PSD não descobrir
um super-candidato, o povo, já se sabe, votará populismo, sorriso, festas,
fotografias nos jornais e imagens na TV, que tem sido essa a obra de Cafôfo. E
se isto é ofensivo para o povo, então o povo que se ofenda à vontade. Já são 40
e tantos anos disto.
Mas insisto: ganhe ou perca, o resultado de Cafôfo não dependerá do apoio
do PS-M.
Jaime Leandro começa a ver as primeiras imagens do 'filme', para usar a
expressão bem empregue esta semana pelo antigo líder João Carlos Gouveia, em
declarações ao DN, referindo-se ao espalhanço deste PS. Tanto Leandro começa
"a ver o filme" que apareceu segunda-feira com um artigo, na referida
edição do Diário, com recados para Paulo Cafôfo. Como dizia a antiga centrista
Maria José Nogueira Pinto, Leandro sabe que Paulo Cafôfo sabe que o PS sabe que
pode ser marginalizado nas eleições, por ser má companhia em matéria de
votos.
As coisas mudaram em muitos lados e mudam aqui. É tempo de esquecer as
maioria absolutas, a bipolarização, o arco do poder nacional com três crónicos
protagonistas de que os correspondentes cá beneficiavam.
Há outro pormenor relativamente ao PS: não é preciso lembrar as hecatombes
socialistas na Venezuela, Itália e agora o 'finisterra' de Pedro Sanchez por
causa das derrotas em apenas duas províncias. Basta ir ao histórico do
PS-Madeira.
Como as conversas não são muitas, porque Cafôfo deve andar muito ocupado,
Leandro vê-se obrigado a abrir o livro, dando trunfos aos adversários, e vem
para a imprensa numa tentativa de colar o partido ao 3.º aniversário da
geringonça municipal, que de PS já nada tem, e para falar em dar continuidade
ao projecto.
Reconhece Leandro que Paulo Cafôfo ganhou o seu estatuto. Mas não fala de
obra cafofiana que se veja. O estatuto de Cafôfo é aquele que os puristas da
esquerda oportunista tanto criticaram no antigo regime de 4 décadas e que há
uns dois anos deu a volta ao conta-quilómetros, para começar de novo com
Albuquerque ao volante. Antes, era preciso cartão laranja para ter emprego.
Hoje é preciso ser boy da Mudança, que a Frente Mar é imensa, como o oceano que
nos cerca. Sim, é verdade que Cafôfo tem combatido o desemprego... dos boys da
Mudança. E tem abusado nos ajustes directos aos amigos.
Antigamente, condenava-se, e bem, as viagens pagas com o dinheiro do povo.
Cafôfo em muito pouco tempo revelou-se um caixeiro viajante com dinheiro
público, não passando de um autarca. Antes criticava-se, justamente, os
jantares a pataco para arrebanhar votos. Um dia destes, foi o que se viu com
Paulo Cafôfo. Outrora banalizou-se a promiscuidade entre os bens públicos e o
uso partidário e pessoal. E agora? Há pouco tempo, combatia-se diariamente o
controlo da comunicação social, pelo processo da perseguição aos 'bastardos'
dos jornalistas. Hoje controla-se a comunicação social com dinheiro do povo, tendo-se
revelado mestres nesta matéria os membros do governo, mas especialmente, ora
bem, o presidente Cafôfo. Quanto se condenaram as saturantes inaugurações de
aeroportos e veredas! Agora inaugura-se a obra com o nome do edil, na placa,
maior do que o do primeiro-ministro.
E fala Jaime Leandro de "tiques de um triste passado PSD" que não
quer "ver repetido"!
A mensagem essencial de Leandro no artigo em apreço é que Paulo Cafôfo se
dedique exclusivamente às eleições autárquicas, esquecendo-se de "outros voos"
- alusão evidente à propalada conquista da liderança do PS pelo mesmo Cafôfo e
a uma candidatura como cabeça-de-lista às regionais de 2019. E lá vai Jaime
Leandro esgalhando caracteres pelas colunas do DN abaixo, falando em nome de
Cafôfo, que Cafôfo sabe isto e aquilo, que Cafôfo não quer isto nem aquilo, e
continua escrevendo Leandro, às voltas como um avião com pouco combustível, a
tentar convencer o edil a contentar-se com a Câmara... até porque "o que é
para ele", nota Leandro, "os ratos não roem".
E aqui é que o secretário-geral falou com dom premonitório.