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sábado, 29 de maio de 2021

 

CRÓNICA


JUVENAL XAVIER                                                                                  





MORRER EM HEYSEL PARK 

HÁ 36 ANOS


A primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher (A Dama de Ferro), num grito de revolta, chamou a si a culpa: Não há palavras, não há justificações possíveis. A culpa é toda da Inglaterra. 

A tragédia no estádio de Heysel, na Primavera de 1985, em Bruxelas, uma hora antes da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, entre o Liverpool e a Juventus, constituiu um marco histórico negativo da violência associada ao futebol, da qual resultaram 39 mortos e mais de 400 feridos. 

 

Antes do jogo contra a Juventus – relata a Enciclopédia Ilustrada de Futebol – um grupo de hooligans ingleses avançou contra os adeptos italianos, que se encontravam atrás de uma baliza. Devido à pressão da multidão, uma parede de segurança ruiu e 39 pessoas, a maior parte delas italianas, morreram esmagadas. Duas semanas antes, 53 adeptos haviam morrido num incêndio no Estádio de Bredford City’s Valley Parade, deixando a imagem do futebol inglês no seu ponto mais baixo.  

A Juventus ganhou um jogo desprovido de sentido, por 1-0, com uma grande penalidade marcada por Michel Platini.  

Devido à tragédia de Heysel, o Liverpool foi banido das competições europeias por tempo indefinido, enquanto todos os restantes clubes ingleses sofriam uma interdição de cinco anos. A sanção tirou algum brilho à competição, já que os clubes ingleses estavam em grande forma, e ganhar um torneio desta envergadura sem defrontar um clube inglês era menos satisfatório. Mas, entretanto, referem Carlton/Hodder & Stoughton (autores da Enciclopédia Ilustrada de Futebol) o problema do hooliganismo continuou. Esta situação levou o Parlamento Britânico a discutir medidas de controle draconianas. O governo ameaçou banir a selecção inglesa e deram-se alguns passos para a adopção de um sistema de bilhete de identidade para facilitar o reconhecimento dos hooligans. Esta proposta causou grande indignação aos verdadeiros adeptos, que consideraram a medida uma violação das liberdades individuais. Esta proposta revelou-se impraticável e foi discretamente abandonada, apesar de muitos clubes começarem a exercer um maior controle sobre os sócios, de maneira a combater o hooliganismo. 

O Manchester United foi a primeira equipa inglesa a regressar aos torneios europeus, em 1990, após uma interdição de cinco anos, por ter sido o primeiro clube inglês a participar nos torneios europeus nos anos 50. 

Álvaro Magalhães – no seu livro Jogo Perigoso – entende que “o fenómeno da violência entre as claques deve ser analisado na perspectiva global de uma sociedade que não fornece compensações transcendentes (o divino, o mito, a tradição, a partilha de ideais) e onde não existem modelos exemplares e orientadores que orquestrem (digamos assim) as energias vitais e indiquem a cada um quem ele é e qual é o seu lugar.” 

Na sua tese “Sociologia do Desporto”, no Curso de Pós-Graduação em Direito Desportivo, na Universidade Lusíada, Jovita Fernandes certifica-se de que é principalmente a partir da década de 60 que a violência associada ao futebol adquiriu expressão de fenómeno social, passando a merecer a atenção das entidades governamentais europeias que o inscrevem no leque dos seus combates prioritários. Da Grã-Bretanha, o fenómeno da violência no futebol irradiou para o continente europeu, nomeadamente através dos adeptos que acompanhavam os clubes ingleses nos jogos das competições europeias. 

Neste contexto, o ex-vice-presidente do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol é de opinião que a tragédia de Heysel, este acontecimento trágico, foi o ponto de partida para a elaboração de novos estudos, análises e inquéritos sobre este fenómeno social, bem como para a adopção de medidas legislativas por parte de diversas entidades nacionais e internacionais de que se destaca a aprovação, em Agosto de 1985, pelo Conselho da Europa, da Convenção Europeia sobre a Violência dos Espectadores e o Mau Comportamento em Eventos Desportivos e em Particular nos Jogos de Futebol que veio a ser ratificada por Portugal, em 1986. 

É ainda a tragédia de Heysel – continua Jovita Fernandes – que leva o governo belga a ordenar a elaboração de um inquérito às causas sociais e sócio-pedagógicas do vandalismo futebolístico, cujos estudos e conclusões foram coordenados por Lode Walgrave (Professor Emérito de Criminologia na Faculdade de Direito da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica). 

“O que houve em Heysel – concluem Hugo Leal e Astregildo Silva, nos Maiores Clubes do Mundo (ediçao de A Bola) – foi apenas um violento despertar para o fenómeno que corroía, havia uma década, o futebol: o hooliganismo, nascido entre os britânicos, progressivamente exportado para a Europa. O desastre anunciava-se mas os sinais passavam despercebidos, primeiro porque ninguém conseguia acreditar que o futebol pudesse apascentar semelhante raça, depois porque nunca tinha havido imagens suficientemente explícitas para chocar as pessoas. Naquele dia 29 de Maio de 1985, o mundo chocou-se e o futebol nunca mais seria o mesmo.”  

O futebol é uma grande festa onde o coração às vezes se perde no caminho e faz que nem sempre ela acabe bem! 

2 comentários:

Anónimo disse...

Perfeito, Caro Juvenal
Quem sabe, sabe.
Tenho saudades de ouvir os teus relatos de futebol e também do saudoso Acácio Pestana
Continua escrevendo, pois a tua chama contamina os teus leitores
Força..

Manuela_a_Lusa disse...

Para muitos o futebol é somente um esporte,mas traz dignidade de vida,oportunidades para aqueles que estão envolvidos.