ORQUESTRA DE CÂMARA DA MADEIRA
DEVIA ACOMPANHAR OS DEBATES... AO VIVO
A melodia do Blue Establishment que, depois de ter seduzido canetas, micros e câmaras, alastra vertiginosamente à oposição, tinha muito a ganhar com uns violinos e umas trompas em fundo
Fica para a História o debate do Orçamento da Região-2016, a chegar ao fim na Assembleia Legislativa.
"Quero enaltecer, quero elogiar, quero destacar..." são expressões emergentes a toda a hora de quase todas as bancadas, em homenagem e bajulação aos secretários regionais que se têm apresentado nos assentos reservados ao governo para trocar impressões ligeiras ao som imaginário do Danúbio Azul.
Fazemos parte do grupo que, embora satisfeito pelas mudanças na Madeira depois de 40 anos, rebentasse lá a Tabanca para que lado rebentasse, não acreditámos na Renovação prometida por Miguel Albuquerque.
Errámos. Rotundamente. O novo chefe da Tabanca, ao estender o tapete do Blue Establishment, excedeu as suas próprias promessas.
Na área social-democrata, a Renovação é um facto, basicamente ao nível do estilo. Os deputados e o líder do PSD já não vão para as discussões parlamentares chamar 'cabrão' a este, 'louco' àquele, 'gatuno' a fulano, 'bastardo' a sicrano. Vai tudo com falinhas mansas, sem stress, com frases suficientemente ambíguas para que não suscitem críticas.
Os secretários falam das medidas orçamentadas a executar em 2016, sem nada de concreto. Fogo fátuo - literalmente. Os deputados, da maioria e da oposição, vão fazendo as suas perguntas, para cumprir o seu papel, também sem dizerem nada de nada, e os secretários, gastando até à exaustão a resposta "tem razão, sr. deputado, concordo consigo, vamos ver..." - lá vão passando incólumes como nunca se viu nesta terra.
Ricardo Vieira desfez-se ontem em elogios a Susana Prada, fazendo corar e deixando sem jeito a elegante secretária do Ambiente. Humberto Vasconcelos, que retomou a teoria dos milhões gizada pelo antecessor, está a passar hoje entre os pingos da chuva, no debate da manhã.
A oposição, salvo raríssimas excepções, intervém com pinças, para deixar claro que as suas críticas vão para o governo anterior - embora o actual já esteja em funções há meia-dúzia de meses.
Claro que Humberto não desperdiça os passes a pingar para o coração da área, e ainda há minutos rematou forte uma assistência antipática para o 'secretário antecessor': "Pois, eu tenho pago os pecados anteriores, mas não posso pagar todos."
Até o avião cargueiro... o secretário, depois de a clique de Albuquerque ter apresentado o tubérculo-voador como uma bandeira de campanha, vem agora dizer que o problema é do empresário que falou nesse projecto, o governo, que ideia!, nada tem a ver com o assunto.
E a oposição acha que fica tudo explicado!
Se a Renovação albuquerquista já conquistara a comunicação social, a oposição também está pelo beicinho.
Ontem, Eduardo Jesus deixou-se escorregar polichinelo abaixo, numa altura em que Rui Barreto tentava ajudar o homem a governar. Jesus chegou mesmo a utilizar a expressão "não tem água com que se lave", que, se era do mais vulgar no calão jardineirista, hoje em dia equivale a um rosário de palavrões capazes de fazer corar um carroceiro. Lino Abreu fez uma observação e-propósito e o secretário, em lugar de pedir desculpas ao visado, insistiu na sua razão, alegando ter também o direito à indignação, ou coisa que o valha.
Mas foi um arrufo isolado. Tirando os momentos desta manhã em que José Manuel Coelho falou como sabe, o ambiente tem sido de concórdia.
Neste momento - 11.35 - Faria Nunes diz de sua justiça sobre a honra de ser secretário da Saúde. Mas tivemos de desligar o aparelho, porque começávamos a pescar bodiões e precisamos de acabar esta peça rapidamente, porque há vida natalícia para além do circo da hipocrisia.
Há um inconveniente nesta marmelada toda em que todos estão acomodados, porque ninguém lhes tira o lugarzinho: a gente vê um bocado daquilo e, como referimos, pega no sono. Talvez mal habituados pelo ambiente de lota de outrora, estranhamos este parlamentarismo envernizado. Mas nem 8 nem 88. Sugerimos que, para o tempo que falta a este parlamento até ao Natal, e já que as missas do parto estão no terreno, Tranquada que meta a Orquestra Clássica da Madeira a actuar para servir de acompanhamento à melopeia dos senhores deputados, desde a maioria até à oposição. Uns temas de Natal vinham a calhar nesta altura.
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José Manuel Coelho foi a excepção nas últimas horas, denunciando sensível desafinação com a música dos 'Albu... queques'. |