MIGUEL ALBUQUERQUE RODEADO DE INCÊNDIOS
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A semana louca dos incêndios não acabou. Pelo contrário, foi só
um começo dos fogos a que Albuquerque terá de acorrer doravante, queira ou não
queira
Quase diríamos que também um fogo nunca vem só. Desta vez, os incêndios que há duas semanas chamuscaram visivelmente a imagem de Miguel Albuquerque deixaram no ar faúlhas que estão a pegar mais lume ao caso dos lesados do Banif e aos primeiros 'ameaços' de eleições autárquicas. Isso a par de alguns reacendimentos preocupantes. E sempre com as chamas a queimar os pés ao líder do PSD e presidente do executivo.
Quando tentou, com sucesso, subir ao topo da carreira política, Miguel não deve ter pensado que um dia lá teria de ser, um dia seria preciso governar. Convenceu-se de que poderia ficar todo o mandato a imitar aquele futebolista que apresenta o melhor estilo no equipar e no correr, porém revela falta de jeito quando chamado a intervir na jogada. O chamado jogador sem bola. Não. Miguel Albuquerque está finalmente convocado para governar com bola. Uma bola escaldante.
Nas últimas horas, o chefe do GR e do PSD passou por duras provações. É questão de lermos a excelente e concludente reportagem do DN sobre a manif dos lesados do Banif, ontem. À saída do Palácio de São Lourenço, onde se 'refugiara', o chefe do governo passou as passas do Algarve. Era dia de vaia. E Albuquerque foi apupado à mistura com os chefões do Santander. Perante o cerco montado, Albuquerque tentou fugir à inflamada questão Banif com a pueril desculpa de que já fizera o que lhe era possível: enviar cartas a Marcelo e a Costa. Coisa que qualquer cidadão podia fazer, já que o presidente do governo da Madeira tem hoje tanto peso em Lisboa como tenho eu ou o Amigo Leitor. Depois, lá foi arengando que não quer enganar ninguém prometendo soluções...
Cuidado! O incêndio Banif avança em várias frentes no Funchal e a Quinta das Angústias será uma delas, quando os espoliados resolverem chamar a contas os que andaram pelas comunidades de braço dado com o Banif aconselhando quem guardara dinheiro de trabalho árduo a comprar produtos tóxicos que acabariam na lixeira da banca falida.
O PSD-M debate-se com várias frentes de incêndio. Por mais que Albuquerque e Rui Abreu queiram adiar, fingindo não perceber a coisa, o problema é que por todo o lado há gente a soprar as brasas das autárquicas. Isto agora em São Vicente foi apenas um lamiré. Apertado à margem da sessão solene concelhia, chefe Albuquerque teve de pronunciar uns elogios ao presidente da Câmara, José António Garcês, que nas eleições anteriores correu com o PSD-M do poder lá no concelho. Parece que Albuquerque afirmou mesmo que Garcês é autarca exemplar. Pelo pouco que percebemos da conversa gaga do presidente Miguel, nada está decidido ainda quanto às próximas eleições em São Vicente. Não? Seria o chefe laranja capaz de mandar os militantes nortenhos apoiarem agora quem, cavalgando um processo de dissidência interna, derrotou o seu ex-partido nas últimas eleições, aliás num ambiente de cortar à faca? O PSD cometerá a inédita gaffe de não ir a jogo? E o desastre que se adivinha outra vez em Machico? E em Santana? Como será Santa Cruz? E o Porto Santo, onde a oposição ao presidente socialista só é feita dentro do próprio PS, já que o laranjal desapareceu?
Dou aqui um jeitinho ao meu Amigo Albuquerque: não falo do Funchal. Não falo do Funchal que é melhor. Ou será que, à semelhança de São Vicente, os crânios do PSD estarão a pensar em apoiar Paulo Cafôfo? Já dizia o livrinho maoista de instruções: se não podes com ele, junta-te a ele.
Mas tenho de perguntar: as cúpulas do PSD têm a consciência de que o partido está dividido em dois? Admitem que em certos concelhos muitos social-democratas votarão ao contrário? Já pensaram que, fatalmente, qualquer candidato em qualquer concelho será bom para metade dos eleitores PSD e mau para a outra metade? Não se questionam ao verem que, nos concelhos ganhos por forças adversárias, praticamente não há oposição social-democrata?
Então? Que fazer para superar estes berbicachos? As eleições são já depois da Festa. Vem o Carnaval, a Páscoa, e eis uma briga sem quartel.
Ora! Albuquerque estará certamente fiado na vantagem que julga ser a inexistência da oposição. Acha que lhe serve às mil maravilhas a bagunça em que se tornou a política regional - e não apenas regional. O próprio Albuquerque vai ao parlamento e, sem dizer nada nem nada ouvir de incómodo, salvo em raríssimas ocasiões para variar, volta para os jardins do Blue Establishment convicto de que tem a situação na mão.
Como diz o brasileiro, anda tudo 'numa boa'.
Cafôfo põe o braço por cima do Presidente da República, para 'roubar' Marcelo a Miguel Albuquerque, e vão ambos, Paulo e Marcelo, por aí pr'a lá como quem vai de uma tasca a caminho da próxima.
Qualquer bicho careta do governo lisboeta que visita a Madeira leva logo, ninguém percebe a que propósito, com Carlos Pereira do PS ao lado, na hora das fotografias; e este esquisito protocolo repete-se ante a passividade do governo regional, que tem o papel de interlocutor do visitante.
Cafôfo e Miguel, seja onde for, correm atrás dos media - o contrário do que acontecia outrora. Viva o boneco na TV e no jornal.
Tudo 'numa boa'.
O PSD tem ao serviço um alto quadro que, à uma, é secretário-geral do partido e braço direito de Albuquerque nas Angústias!
Os pequenos partidos, com cada vez menos espaço na TV e nos jornais porque não interessa dar voz a quem diz mal do governo e da Câmara do Funchal, desapareceram da actualidade oficial.
Carlos Pereira, ao menor espirro no Funchal, anuncia que vai pedir uma reunião em Lisboa com um secretário de Estado qualquer... e depois marca conferência de imprensa para anunciar uma linha de crédito de alguns milhões, sem o menor efeito, claro está. A propósito, ando 'à rasca' com um torcicolo de tanto olhar o céu na esperança de ver os testes de avião no combate aos incêndios, que Pereira anunciou em 'antecipação' ao governo, merecendo a correspondente manchete no DN.
Albuquerque perscruta o panorama e diz: está no papo, vão ser mais uns anos a caçar e a passear. Pelo que toca à oposição, é capaz de ter razão. O PS é Carlos Pereira. Logo, há pouco PS. O PP tem líder que não é bem líder, por não ser líder definitivo, e tem um que devia ser líder e deitou tudo a perder. Um partido oposicionista que não é carne nem peixe. No tocante aos meus conterrâneos e Amigos do JPP, o 'assunto' era para estar mais risonho nesta altura do campeonato. Em todo o caso, um desgaste que se veja virá muito longe ainda e não é inevitável. Os restantes partidos, mais pequenos, estão com vida difícil.
Albuquerque diverte-se com esta oposição. O diabo é que são cada vez mais os movimentos populares bem sucedidos, que põem paulatinamente os políticos carreiristas na rua. Em todo o lado, em todas as latitudes. E a Madeira não tem sido excepção, conforme documentos juntos.
Albuquerque não deixou passar a cena dos apupos, ontem, sem acusar o toque e vociferar: esses que andam nas redes sociais não sabem do que estão a falar. Possivelmente tenha razão. Mas precisa de se convencer de que também já ninguém acredita nas lamentáveis dissertações do 'cronista' Miguel semanalmente (ou quinzenalmente?) num jornal diário. Gastar aquele espaço com agradecimentos de cima a baixo a quem trabalhou nos incêndios e a descrever o que o governo fez, como se não fosse obrigação do governo trabalhar - isso seria artigo aceitával se assinado por um presidente de junta de freguesia. De um presidente de governo esperava-se que dissesse coisas novas e grandiosas, que deixassem o povo confiante.
Se V. Ex.ª reparar, o governo tem visitado bombeiros, tropas, polícias, GNR, voluntários, desalojados - a todos agradecendo a postura nos incêndios. E dessa gente toda não vimos uma alma tomar a iniciativa de agradecer o que quer que fosse ao governo.
Voltando à vaca fria, seria útil a Miguel Albuquerque se ele, mesmo durante o jazz ou o chá no palácio, desse um pouco de atenção às redes sociais. Usando o iPhone, por exemplo. É que as coisas estão a mudar. Velozmente. Esconder fragilidades partidárias e governativas na 'comunicação' oficial, ainda por cima com a gente a pagar, já não é suficiente, nem pouco mais ou menos.
Acordem os oposicionistas tradicionais ou avancem independentes à luta, o PSD-M não tem grande futuro. Este PSD-M. Na verdade, não foi o PSD de Albuquerque a ganhar o partido, foi o PSD de Jardim a perdê-lo.
O próprio partido laranja arde em lume brando. Dali sairá incêndio de proporções consideráveis. Depois dos próximos pequenos fogos de percurso, tipo Hospital, ferry, reflorestação, banana, gado na serra, prevenção perante as possíveis derrocadas do Outono, desemprego, pobreza - a grande fogueira, alimentada por esses lumes, vai manifestar-se nas autárquias do ano que vem, podendo atingir proporções descomunais no congresso laranja que se seguir.
Fica já lavrado aqui: se Miguel Albuquerque conseguir apagar os incêndios que lhe cercam o mandato e, saindo 'vivo' desta calamidade governativa-partidária, levar o seu partido à vitória, então ele é um grande político e a gente é que não percebe nada disto. Não teremos pejo em o reconhecer na altura. Serei o primeiro a reconhecer publicamente que Albuquerque não é só estilo, também sabe jogar com a bola nos pés.
Mas, se querem que antecipe uma opinião empírica, arrisco sim senhor: não acredito nada na recuperação do PSD-M.