quarta-feira, 9 de março de 2016

O Homem sem Leme




NEM QUE CRISTO DESÇA À TERRA
MARCELO PÕE O PAÍS NA LINHA

O novo Presidente anseia saber se haverá novidades nos comentadores políticos.

Temos novo Presidente da República. O cessante já está fora de Belém. Saiu do Palácio esta manhã, subia ainda o sol pelas colinas de Lisboa. Cavaco Silva e seus chegados num mini-cortejo fúnebre, como a desocupar uma casa mal-assombrada. Exorcismo do fantasma que atormentou um povo crendeiro durante 10 penosos anos. Era Presidente da República. Desestabilizou o País e falhou no cumprimento da Constituição, se nos lembrarmos, desde logo, do que se passou na Madeira com ligações a ele - tanto nos 10 anos de PR como nos outros 10 de primeiro-ministro. O regime instalado cá, nascido em 1978, foi elogiado por Cavaco Silva, em pleno solo madeirense, como "exemplo supremo da democracia", sabendo o homem ao pormenor da realidade insular, das condições em que se exercia esse 'exemplo supremo da democracia' no tratamento dado à oposição, nas vielas do regime de compadres e nas condicionantes impostas à comunicação social.
Esta manhã, para um eterno inadaptado ao regime de Abril, foi a última viagem com motorista e carro luzente de gama superior - entre Belém e São Bento. Um batalhão de batedores em motos topo de gama. No palácio dos deputados, havia já dignitários para todos os gostos, entre os 500 convidados que também lá chegaram em viatura oficial. O Rei de Espanha, o Presidente de Moçambique, o antigo chefe brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o Presidente das Europas unidas, antigos presidentes da República de Portugal, enfim, o ambiente natural das mudanças de Chefe de Estado, com honras militares a cargo dos 3 ramos das Forças Armadas, a Bandeira Nacional omnipresente, A Portuguesa executada várias vezes ao longo do cerimonial, muitas flores.

Chegou a hora de Marcelo tomar posse e discursar. Um homem incomparavelmente mais quente do que Cavaco. Inteligente na manipulação das vontades. Saber desconstruir preconceitos e congregar consensos à partida, como no primeiro apelo da manhã, servindo-se do patriotismo: "Aqui nasci, aqui aprendi com meus pais a Língua que nos une..."
O fio condutor do primeiro discurso
do novo Presidente foi, tal como se esperava, a abrangência. Com a banal mas necessária promessa de "solidariedade institucional indefectível ao Parlamento". O elogio e as pazes com Cavaco ao estilo 'desculpe qualquer coisinha'. Os cumprimentos aos antigos Presidentes, quase todos de esquerda, bem como aos altos dignitários estrangeiros. Vulgaridade em cerimónias do género que arrancaram aplausos ao PS, à direita e às galerias de convidados. As esquerdas, imperturbáveis. Mas Marcelo sabia como acordar o Bloco, o PCP, os Verdes. Bastava e bastou aludir ao 25 de Abril de 1974, esse dia vermelho em que Portugal contou "com os jovens capitães, resgatando a liberdade, anunciando a Democracia, permitindo converter o Império Colonial em Comunidade de Povos e Estados independentes, prometendo a paz, o desenvolvimento e a justiça para todos". 
Então, as esquerdas da 'geringonça' não resistiram e deixaram-se seduzir, aplaudindo o Presidente - o mesmo que foi eleito pela direita e por algum centro-esquerda.
A partir daí, um discurso sempre a subir de tom. A defesa intransigente da Constituição - que o próprio Marcelo discutiu e votou em 1976 e de que agora quer ser um "guardião permanente e escrupuloso". O regresso à vocação marítima de Portugal, com a inclusão das Regiões atlânticas, reiterada em várias passagens, num arquipélago de 3 vértices a contar com o Rectângulo. E a chamada das comunidades emigrantes ao projecto de unidade lusa e lusófona que o novo PR quer guiar. 
Também o "valor do respeito da dignidade humana, antes do mais". Marcelo falou em aproximar, uns dos outros, todos os portugueses, afinal "pessoas de carne e osso" com direito a ser livres... num país, como ele disse, "em que não haja, de modo dramaticamente persistente, dois milhões de pobres, mais de meio milhão em risco de pobreza e ainda chocantes diferenças entre grupos, regiões e classes sociais". 
Pois. O grande problema é que os Portugueses não vivem num outro país, vivem em Portugal, ou seja, no País que corresponde em cheio às estatísticas assustadoras que referiu. E é aqui que o comentador Marcelo sai de cena para deixar entrar o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. O discurso, como outros em circunstâncias análogas, está ao alcance de um comentador fazer, mesmo que sem o brilho que Marcelo lhe sabe incutir. Este discurso foi uma análise à situação nacional e uma declaração de princípios genéricos a adoptar nos próximos 5 anos, aliás 10 anos. Doravante, contudo, é preciso Marcelo saber fazer, executar, responsabilizar-se. O PR precisa de resolver e ultrapassar as situações quando os parlamentares e os governantes não dão conta do recado. Não é para ficar a comentar o que os outros fazem. Os comentadores é que o vão comentar a ele, Presidente. 
Elementar.

Depois de uma hora e pouco em que nos deixámos flutuar no encanto das palavras e nas ideias bem construídas do novo Presidente da República, eis que somos despertados por telejornais e escaparates com manchetes espampanantes sobre o País real. São as manifestações desesperadas de lesados da Banca. É o aumento das larguíssimas centenas de milhares de desempregados. Ex-governantes de nomeada acusados de crimes graves, à espera dos trâmites em tribunal. Uma classe política desacreditada. Uma Justiça que cria suspeitas sobre si própria. Altos dirigentes desportivos enredados nas teias da lei. E o governo que Lisboa tem: dependente de uma maioria periclitante, feita de peças que não se encaixam a modo no puzzle. É ainda um Orçamento do Estado pendente e duplamente refém, das esquerdas e dos mercados, em cuja viabilidade poucos acreditam. 
Quer gerente-conselheiro teremos em Marcelo?
Como será quando ele tiver de ouvir os comentadores políticos a respeito das tergiversações de Belém? É que há sempre uma tendência de catavento naquela cabeça. Se Cavaco falhou como o Homem do Leme, Marcelo é um Homem sem Leme. 

Em poucos minutos, voltámos à realidade. Como é que Marcelo, daqui a 10 anos, sairá de Belém? Feito fantasma exorcizado, como Cavaco Silva, hoje? De um modo ou de outro, ele sairá então para deixar entrar outro igual, mais coisa menos coisa, ao fim e ao cabo. Talvez o País esteja entregue a um gestor de insolvências. A Região Madeira? Nem queremos fazer conjecturas, para não dar azar. Já quanto à banca, nunca se sabe se...
Mais um café. 
Repondo os olhos no écran, eis novo noticiário a relançar um extracto de hoje do novo inquilino de Belém: "Temos de cicatrizar feridas destes tão longos anos de sacrifícios, no fragilizar do tecido social, na perda de consensos de regime, na divisão entre..."
Chega! Nos próximos 10 anos, no meu prato ninguém põe uma vichyssoise! Nem que Cristo desça à Terra!


3 comentários:

Anónimo disse...

Fica bem dizer mal do Cavaco. Dá um estatuto de intelectual da política.

Anónimo disse...

Senhor Calisto, como pessoa geralmente bem informada que é, será que nos pode esclarecer que "viagem de trabalho ao estrangeiro" realizou o presidente do governo regional, que o impediu (à última hora, pois era suposto ter estado presente) de marcar presença na tomada de posse?
É que parece que ninguém sequer sabia que havia esta viagem (!?), muito menos para que local e com que motivo (??).

Também é interessante ver como agora o Diário de Notícias local já não se preocupa com as viagens "clandestinas" do novo presidente do governo.
Enfim, outros tempos, outros interesses...

Paulo Farinha disse...

Parabéns caro Luís Calisto por este transparente artigo.
De realçar "O regresso à vocação marítima de Portugal, com a inclusão das Regiões atlânticas, reiterada em várias passagens, num arquipélago de 3 vértices a contar com o Rectângulo", de facto, esperemos que o Presidente confira a devida atenção ao exposto.
Acredito que será o Presidente de todos os portugueses e promoverá o regresso de Portugal ao mar.
Agradeço este artigo.