sábado, 4 de agosto de 2012

Futebol




'PENALTI SENTADO' É FANTASMA QUE PERSEGUE PETITA









Esta equipa do Marítimo, que disputava os regionais da Madeira, aplicou 3-0 ao Sp. Braga acabadinho de ganhar a Taça de Portugal! À frente, Vasco, Ângelo, Petita, Isaque e Noémio. De pé, Grisaleña, Dúlio, Emanuel, Eugénio, Nunes e Andrade.



Ilídio de Sousa 'Petita' voltou à Madeira a título definitivo, após uma vida profissional ao serviço da indústria hoteleira londrina. Agora, continuará a deslocar-se à capital inglesa, quando for caso disso, mas a maior parte do tempo será para desfrutar as delícias da ilha onde passou a infância e parte da juventude.



Petita marcava golos sem conta, mobilizava as massas e vendia muito papel da 'Bola', 'Mundo Desportivo' e quejandos. Parece que foi ontem, mas precisamente neste domingo, 5 de Agosto, o antigo ás dos relvados festeja o 66.º aniversário.



Antigo futebolista do Marítimo, Vitória de Setúbal e Peniche, Petita anda estes dias pelo Funchal, com mais assiduidade nos cafés do Mercado e nas esplanadas da Sé. A conversa com antigos e novos amigos consome abundantemente futebol e mais futebol. Mas, à chegada de cada novo conviva, repete-se um tema incontornável: e aquele penalti sentado contra o Sporting que...?

Já ouvimos o nosso antigo companheiro de camisola verde-rubra contar por essa Madeira fora, e mesmo nas saídas ao Continente depois do seu regresso ao Marítimo, lá para 1973/74, o famigerado penalti que ele meteu na baliza do guarda-redes Carvalho. Era o 3.º jogo para desempate numa eliminatória da  Taça de Portugal, no Restelo. Penálti e golo do Vitória de Setúbal, que assim prosseguiu em prova.
Relatos da imprensa: Petita deu a eliminatória ao Vitória com um penálti que executou... sentado.


Um cromo bem popular.

Já ouvimos a história desse penálti mais de mil vezes, ao longo destes anos. Há poucos dias, entre um café no 'Apolo' e uma água no 'Vera Cruz, vários auditórios pediram a recapitulação da cena do Restelo.




Golos na Europa

Bem podiam pedir que Petita falasse do penálti que em Outubro de 1968 converteu para dentro da baliza francesa do Lyon, na prova europeia em que o Vitória sadino andava envolvido. 
Houve também aquele golo de Petita no V. Setúbal, 3 - Newcastle, 1, resultado insuficiente depois da derrota por 5-1 em Inglaterra.
Podiam também puxar conversa para a final da Taça de Portugal em Junho desse 1968, no Estádio Nacional, V. Setúbal-FC Porto. Porque foi uma inesquecível aventura. 
O Vitória, com Petita no eixo do ataque, eliminara o Salgueiros, o Sporting (1-1, 2-2 e 1-0, com o tal penálti 'sentado'), a Académica e o Vitória de Guimarães. Entretanto, o Marítimo afastava os famosos 'Bebés de Leixões', com 1-0 nos Barreiros (golo de Noémio) e 1-1 em Matosinhos (Ângelo). Capricho do sorteio: Petita frente a frente com o seu clube do coração, o Marítimo, nas meias-finais. Forças desiguais em confronto: zero-zero no Funchal, 6-0 no Bonfim, para os sadinos.

Veio então a final, no Jamor.
Petita, com o guarda-redes Vital, mais Conceição, Herculano, Cardoso (muito mais tarde treinador do Nacional), Carriço, Tomé, Pedras, Guerreiro, José Maria e Jacinto João, sob orientação de Fernando Vaz (que também veio depois para a Madeira, treinar o Marítimo), fizeram o Setúbal abrir a guerra, com um golo de Pedras. Os azul-brancos de Pedroto, com Américo às redes, Bernardo da Velha, Valdemar, Rolando, Atraca, Pavão, Custódio Pinto, Jaime, Djalma, Eduardo Gomes e Nóbrega inverteriam o rumo do resultado, com golos de Valdemar e Nóbrega: 2-1 e taça para o Norte.

Podia-se falar disso tudo e mais. Mas o penálti do Restelo transformou-se no fantasma de Petita.


As enchentes para ver os miúdos mostrar habilidades no Almirante Reis! Mesmo de 'pata rapada', a não ser Martinho, mais tarde empregado do 'Apolo'. (in 'Bola e Mergulhança')



Tempos de infantis no Campo D. Carlos I


Nos seus tempos de garoto, quando participava nos torneios infantis do Almirante Reis, não passava pela cabeça de Petita o quanto se tornaria famoso e vedeta das páginas da imprensa desportiva portuguesa por causa dos seus golos e da excentricidade fora de campo. 
Tempos inesquecíveis, esses da infância.


Petita em cima à direita, onde alinham Baptista, Eugénio, Bacanhim, Correia de Jesus e Pedro. Em baixo reconhecem-se Nicodemos, Isaque, Vasco e Ângelo.


Quarteto de luxo do Marítimo regressado aos títulos de Campeão Regional: Petita, Ângelo, João 'Pitanga' e Nunes.


Portugal-Inglaterra em Esperanças nos Barreiros (1-1), com Petita na terceira posição em baixo, da esquerda para a direita). Mas aqui há mais Madeira. Noémio está em cima, ao lado do guarda-redes Damas (à direita). Em baixo, o da direita é Carlinhos (na altura do CF União e depois Marítimo) e junto dele o conhecidíssimo Nélson (Marítimo, Benfica, Varzim, Sporting). 


Ainda quinta-feira, Petita esteve num encontro de futebolistas maritimistas do seu tempo, no Arsenio's, e a história do penálti sentado foi substituída pelas peripécias daqueles torneios que concentravam no Almirante Reis milhares de assistentes, ao fim da tarde.
Petita, Emanuel, Isaque, Vasco, Nélson, Fernando Luís, Feliciano, Noémio, centenas de outros nomes grandes do futebol madeirense e português aperfeiçoaram as suas qualidades ali no campo D. Carlos I, entre os 12 e os 15 anos.
Reunidos em convívio de amigos, todos mostram boa memória sobre os tempos idos, mas surgem discussões a respeito de pormenores mais ou menos interessantes. O Belenenses equipava-se acolá no 'Clipper', o Alma Lusa era na barbearia onde trabalhava o sr. Jaime que está hoje na 'Turista', o Vasco da Gama de Mestre Feliciano 'Sapateiro' equipava-se mais além...
Não senhor, o Alma Lusa, onde jogaram Petita, Vasco, Isaque e Fernando Luís, mudava de roupa era numa transversal à Rua de Santa Maria...

Velha sede do Marítimo, com o 'Popular' à beira.


Do Almirante Reis para os grandes da Madeira e do Continente

Quem se lembra de tudo é mesmo o sr. Jaime Sousa, da barbearia. À época, trabalhava junto do bar S. José, ganhava o seu dinheiro e ainda era apoiado pela família, portanto tinha possibilidades de ajudar a pequenada que passava o dia inteiro atrás da bola no Almirante Reis. Futuros nomes grados do futebol madeirense apareciam-lhe na barbearia e pronto, lá ia uma sanduiche com café no S. José ou na Estrela Azul.
"Lembro-me desses pormenores todos, lembro-me de o Petita partir um braço num jogo pelo Belenenses", conta sr. Jaime. Que não esconde o orgulho de várias vezes ter sido procurado por vedetas que saíram da Madeira para o futebol nacional e que, de visita ao Funchal ao serviço dos seus clubes, o convidavam para ir ao futebol.
"Eles continuam a gostar de mim, penso que apreciam ainda hoje as pequenas ajudas que lhes dei naquele tempo, e isso é um orgulho que tenho. Eu ajudava todos, de todos os clubes, embora trabalhasse com o Brazão e o Fancheca, organizadores do Belenenses."
Sim, diz sr. Jaime, o Alma Lusa chegou a fazer cabina dentro da barbearia, e até o Belenenses, quando Brazão lhe pedia o jeito.
Banho? Banho era no mar, dois ou três mergulhos e estava resolvido, recorda o popular barbeiro, maritimista da velha guarda.



O Marítimo foi ao Porto 'raptar' o machiquense Noémio, com a ajuda do pai, Arrais 'Besouro'. Emanuel de Freitas, recém-internacional júnior, também não resistiu ao chamamento da ilha.


Emanuel, Nélson e Fernando Luís 'Hernâni', por exemplo, passaram do Almirante Reis para o Marítimo e daí para grandes clubes do futebol Nacional (Nélson e Emanuel para o Benfica, 'Hernâni' para o Belenenses). José Luís, que jogou no Belenenses do Almirante Reis, foi para o Nacional e depois para o Belenenses do Restelo. Arlindo passou-se do Braga dos torneios infantis para o Braga continental.
Petita começou pelo Belenenses nos torneios infantis do Almirante Reis. À entrada da década de 60, vestia o equipamento do Marítimo como principiante. E depois como júnior, em 1962-63.

Cresceu a ver o Marítimo, em seniores, subjugado pelo poderio do CF União, que somava campeonatos atrás de campeonatos. Assim que subiu ao escalão principal, meteu ombros à empreitada hercúlea de abater os azul-amarelos, que levavam sete títulos consecutivos de campeão da Madeira. A nova geração contava com Emanuel de Freitas, António João, Andrade, o guarda-redes canariano Grisaleña, Eugénio, Vasco, Isaque, Ângelo, Noémio, Fernando Luís 'Hernâni', Calinhos, Julinha e mais uns quantos ases da bola que, imbuídos de um espírito decididamente conquistador, conseguiram devolver a hegemonia do futebol regional ao Marítimo.

Daí por diante, Petita assinou com o seu violento pontapé momentos históricos vividos no relvado dos Barreiros.
O golaço em pontapé bicicleta numa eliminatória da Taça contra um grupo caboverdiano.
O livre dentro de área noutra eliminatória da Taça que os adversários na barreira nem tentaram interceptar, por amor ao físico, e que só parou no fundo das redes do célebre leixonense Rosas.
O golo no 3-0 com que o Marítimo fez questão de cumprimentar o SP. Braga, que vinha de conquistar brilhantemente a Taça de Portugal.
Outros golos para todos os gostos que lhe valeram a famosa Bola de Prata da Ourivesaria Paraíso.
E aqueles quatro num só jogo, ao Varzim (o Marítimo do regional a pregar cinco num primodivisionário), quando estava praticamente certo que se mudaria para o 'europeu' Vitória de Setúbal. Exbição que levou Francisco Tavares, representante sadino na espionagem do jogo, a confessar depois: "Pagámos 400 contos pelo Petita, mas, se ele joga como contra o Varzim, vale 4 mil!"


Tantas histórias, mas aquele penálti...


Aí pelas ruas, os adeptos do seu tempo, que não o deixam passar despercebido, falam-lhe nessas proezas todas. Mas, tarde ou cedo, lá vem a pergunta sacramental:
- Petita, e aquele penálti, aquilo foi mesmo sentado que...?

Lá vai a explicação. Mais uma.
"Corri para a bola, chutei e escorreguei. A bola entrou e quando olharam para mim viram-me sentado, por causa do trambolhão. Depois, nas cabinas, os jornalistas perguntaram-me como é que eu conseguira ter a descontracção de marcar um penálti daquela responsabilidade... sentado. O que me ocorreu foi dizer que para mim era habitual, que era sentado que eu marcava os penáltis quando jogava na Madeira, pelo Marítimo. Pronto, a fama ficou."

Petita divertiu-se com essa versão, que não adivinhava tão duradoura. Hoje, o penálti 'sentado' é um fantasma que o persegue. Mas a habituou-se a conviver com ele.


Petita fez humor em Lisboa, depois do golo a Carvalho, dizendo à imprensa que na Madeira marcava sempre os panáltis... sentado. Ora, o marcador de penáltis do Marítiomo era Ângelo!


Cabe acrescentar aqui um pormenor: quando Petita jogava no Marítimo, o marcador de penáltis era Ângelo.

E outro pormenor: Petita completa neste domingo, dia 5 de Agosto, 66 anos de vida. Os nossos parabéns e que a festa, preparada em solo madeirense, seja tão rija como nos velhos tempos.
Há um elemento que não faltará, mesmo sem ser convidado: o fantasma.


Os antigos jogadores do Marítimo (aqui Petita e o guarda-redes Dias) encontraram-se na sua Zona Velha e não falharam a visita ao 'Vitória', que frequentaram diariamente durante anos.


Depois de tantos anos, o actual patrão do Vitória Rogério não serviu café com leite como fazia quando era um jovem empregado a trabalhar para seu pai. Isaque, Vasco, Petita e o Dr. José Augusto Araújo (outro carismático campeão do Marítimo como nadador) escolheram bebida mais fresca.


Seguiu-se um convívio com muita gente à mesa (aqui aparecem Petita, João Carlos e Vasco), em frente à porta 17 da velha sede do Marítimo...


...Mesmo debaixo da sacada onde a rapaziada passava fisn de tarde a falar de futebol. A história repete-se, só que cada vez mais velha.



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