terça-feira, 27 de dezembro de 2016

OPINIÃO


PROCURAM-SE ELITES


GAUDÊNCIO FIGUEIRA

Nos largos milhares de anos, para não dizer milhões, em que o Homem habita a terra, num século pouco ou nada “acontece”. Porém, se quisermos perceber o nosso dia-a-dia, convém conhecermos aquilo que está para trás. 

No início do séc. XX, a revolta das massas era motivo de preocupação. Hoje, elas continuam a existir. Votam, marcam presença nas manifestações, enfrentam as polícias, mas já não são os seus interesses que as fazem movimentar. As elites instrumentalizam-nas em função das suas estratégias de poder. Reformas impopulares acontecem ao arrepio da opinião pública e a distinção entre direita e esquerda esbate-se. Dois factos, na década de 80, corporizam a mudança: o esmagamento da greve dos mineiros britânicos, por Margaret Thatcher; o aniquilamento da greve dos controladores aéreos americanos, por Ronald Reagan. Adeus luta de classes. Adeus conquistas sociais, reduzidas, ou mesmo abolidas. A queda do comunismo acelerou a “união de facto” entre as elites, oriundas do desmoronamento dos partidos comunistas a Leste, com os liberais de Reagan e Thatcher. 

A Ordem Mundial existente desde 1946, ao sucumbir, não afectou apenas a Europa. Os efeitos chegaram a todo o lado. Os Países do 3º Mundo ligados à URSS, deixaram de receber apoio. Ficaram isolados perante as instituições mundiais com as transferências das suas “elites” para os braços do ex-inimigo. Ficaram na dependência dos tecnocratas do FMI e outros. A propagação do modelo neoliberal no Mundo, tornava cada vez mais evidentes as desigualdades. A capacidade de crescimento da economia chinesa viabilizava esta realidade. Quem havia de dizer que a China, com bandeira vermelha e ideologia comunista, no início do séc. XXI seria a força estabilizadora do capitalismo liberal! A América Latina, feudo do Império Americano, também sofreu consequências. Inicialmente tudo correu bem, as teses tecnocratas vingaram, mas os hábitos destes países, onde tudo é permitido fazer aos que mandam, fizeram-nos voltar à cepa torta, com a fuga de capitais que lançou as populações na miséria. 

Desintegrados, os partidos comunistas, dissidentes da social-democracia e liberais de esquerda também engrossaram as doutrinas neoliberais que se tornaram dominantes, para não dizer únicas. O risco de implosão torna a crise política e cultural inevitável no quadro actual. Os movimentos de contestação do início do séc XX, hoje sem audiência junto das elites políticas viram-se para os nacionalismos exacerbados e intolerância religiosa, criando terreno fértil ao populismo de direita e esquerda. É neste terreno fértil que aparecem os nada recomendáveis Nigel Farage, Boris Johnson, no Reino Unido; Donald Trump nos EUA; Marine Le Pen em França; Geert Wilders na Holanda; Putin na Rússia. 

Foi na Europa que, durante 70 anos, capitalismo e comunismo se digladiaram. Vivemos as sequelas dessa morte e as dores de parto de uma Nova Ordem – seja ela qual for. O empobrecimento que a globalização e o progresso técnico trouxeram são efeitos do neoliberalismo e da cultura em que o dinheiro é rei. O Brexit – gerado na imprudência das elites - alastra para os EUA, com Donald Trump – a quem podemos aplicar o nosso “orgulhosamente sós” do Dr. Salazar – um homem feliz por garantir ao dinheiro a primazia sobre todo o resto. 

Assim sendo, nós Europeus, vemos um projeto que uniu muitas vontades desde 1951 correr o risco de desaparecer, estando de momento nos “cuidados intensivos” sob a vigilância da Líder Alemã, a quem ainda deixam a Leste o herdeiro de Ivan, o Terrível, com que Trump tão bem se entende. 

5 comentários:

Fernando Vouga disse...


Na antiga China imperial, por vezes, os imperadores escolhiam eunucos para os mais altos cargos do Estado. Talvez porque, desprovidos da "ambição", chamemos-lhe assim, esses homens estariam mais predispostos a exercer seu esforço no bem comum, sem se preocuparem com o seu. Fica a sugestão!

Gaudêncio Figueira disse...

Lamento Fernando, mas não me parece que seja solução para os tempos que atravessamos.
A "ambição" - tão grande como os respectivos egos - avaliada pela propaganda com que nos massacram, exercem-na na plenitude.
Acho mesmo que a "ambição" leva a contorcionismos dignos de vermes. É por tudo isto que, julgo eu, "ela" não falta.
A faltar alguma coisa será apenas "ambição" pela dignidade

Eu, O Santo disse...

Não é só na América Latina que "tudo é permitido fazer aos que mandam".

Deixo esta pérola da SRAPE: não se deve instaurar um processo disciplinar aos funcionários públicos que emitem pareceres jurídicos que desrespeitam a lei vigente... pois existe a possibilidade de recurso jurisdicional.
Então, é permitido aos funcionários públicos desrespeitar grosseiramente a lei...

Anónimo disse...

A estupidocracia e a demagogia tomaram o lugar da meritocracia , talvez por isso as chamadas elites cada vez mais estão afastadas do poder , talvez seja tempo de repensar o sistema conforme a sugestão do Cor Vouga , seria uma mudança interessante para quem está habituado a ver os decisores pensarem com a dita cuja.

Anónimo disse...

É só ver como se tomam as decisões na Cama do Funchal.