quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Opinião



Ser madeirense não é viver na Madeira.
Uma ideia em consonância


Ricardo Meneses Freitas

A emigração é um fado muito madeirense, um fado que teve um hiato entre o final da década de 1980 e o fim da década de 1990, mas que logo retomou a sua dinâmica após a administração pública regional deixar de absorver massivamente o crescente número de jovens madeirenses qualificados.
A realidade impôs-se perniciosamente após a época do emprego garantido e dita que quanto maior a qualificação e especialização, menor será o espaço de trabalho na RAM. A realidade para os que não têm o sobrenome elitista certo é a emigração, muitos vão estudar e já não pensam voltar, sabem a história daquele amigo, daquele primo e forçosamente direcionam os seus esforços para uma vida fora da terra que os viu nascer e crescer. A estes juntam-se, pontualmente, vagas de emigração não qualificada em resposta às incríveis incompetências das elites políticas que periodicamente conseguem por o País e a Região na bancarrota.
É um fado caro(a) leitor(a)! Mas pode e deve ser um fado melhor cantado. Mas primeiro que se defina o que é ser madeirense. Para o Governo Regional e Mayors afins, o madeirense é o que reside e vota na Madeira e Porto Santo, a estes juntam-se uns quantos madeirenses endinheirados que vingando no seu destino migratório, passam a fazer parte do grupo que interessa para encher os bolsos dos partidos e para alguns investimentos pouco sensatos (se não o fossem, não era preciso ir à Africa do Sul, aos EUA ou ao Canadá arranjar investidores, afinal ainda estamos na Europa dos Milhões). E os outros? E aqueles que quase totalizam um milhão de cidadãos? Simplesmente não contam para o “totobola” e até criam pele de galinha às elites governantes perante a hipótese de um regresso massivo.
Para mim, um madeirense é aquele que sabe dizer estepilha sem parecer intelectualmente limitado. Para mim o madeirense, mais que um local de nascimento, é uma cultura muito rica e própria e não se esgota no dinheiro que tem no bolso ou no BANIF (epá, desculpem, estes já foram), ou no sítio onde reside e trabalha. Esta grande massa de conterrâneos e descendentes, que perfazem as comunidades madeirenses, não pode continuar a ser encarada como o porquinho mealheiro das elites madeirenses, retirando um autêntico arraial de sinergias positivas para eles e para nós que continuamos no nosso adorado calhau.
É verdade que o atual Governo Regional tem vindo a dinamizar uns encontros/cimeiras com os ditos emigrantes de sucesso tentado uma aproximação às ditas comunidades. Mas desculpem-me a franqueza, estas iniciativas não resultam em absolutamente nada de útil para o comum madeirense ou para o comum madeirense emigrado. Nem são originais, apenas passaram a ser públicas e não escondidas num qualquer restaurante madeirense ou da diáspora, muito menos original é o real objetivo destas iniciativas, desviar “bolívares” para o burgo elitista.
Aquando de um desses encontros, perguntei a alguns empresários que estavam em Londres se estariam disponíveis para empregar conterrâneos, ao que me responderam, invariavelmente com visível entusiasmo, que não só estavam disponíveis, como preferiam ajudar os “deles” ao invés de contratar paquistaneses, polacos, espanhóis e por aí adiante. Imagina o leitor que entusiasticamente pus-me a puxar pela mioleira de modo a criar uma solução que fosse win-win. Se não vejamos, temos um mercado de trabalho depressivo, com imensa emigração forçada e temos conterrâneos com toda a disponibilidade para acolher quem não encontra oportunidades na RAM.
O fruto do brainstorming pessoal foi esta ideia: Porque não fazer protocolos com os destinos onde as comunidades madeirenses são mais fortes, de modo a permitir que os que se vêm obrigados a emigrar possam não só encontrar mais segurança como mais conforto no processo violento de emigração? (Esta parte nem foi tecnicamente um brainstorming, bastou adaptar o que os chineses já fazem há dezenas de anos.). Porque não criar uma bolsa de emprego acessível aos que têm que emigrar para que possam planear a sua “aventura” de modo estruturado e com muito menos violência? Porque não incluir neste programa, a possibilidade do emigrante descontar diretamente para o sistema de segurança social português de modo a garantir acesso ao subsídio de emprego se quisesse regressar à RAM após uma temporada de emigração? Não seria esta uma maneira humana de trazer os nossos emigrantes para a participação cívica da Madeiralidade?
A resposta que tive a esta ideia é que era politicamente perigosa. Eu pergunto, não é mais perigoso ter uma região que se revela uma autêntica bomba relógio social porque grande parte do emprego que tem é numa área tradicionalmente muito instável (turismo)? As crises que se multiplicam pelo Mundo só vêm agravar o meu medo que isto possa descambar muito rapidamente para uma tragédia. Não seria esta ideia uma almofada para muita gente? Deixo aos vossos critérios, estimados leitores.

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