segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Opinião




Não podemos confundir
prémios com excelência



Por Vitorino Seixas



Marques Mendes foi o convidado de honra das “500 Maiores e Melhores Empresas da Madeira”, evento que teve lugar no passado dia 17 de Novembro de 2016, no Centro de Congressos da Madeira. Na véspera, Marques Mendes deu uma extensa entrevista ao Diário de Notícias da Madeira onde deixou uma mensagem aos empresários “A circunstância de a Madeira ser uma ilha, um espaço pequeno, não retira nem de longe nem de perto a oportunidade de ser um exemplo de excelência.” ¹. Sobre a “Economia do Futuro” deixou outra mensagem “Temos que ter uma economia que tem sustentabilidade financeira, competitiva e que acentue a vertente da internacionalização” ¹.

Como se constata, as mensagens de Marques Mendes representam uma visão da economia que é coerente com a visão das “500 Maiores”, ou seja, o centro das preocupações é a sustentabilidade financeira, sem quaisquer referências à sustentabilidade ambiental e social. A leitura do suplemento “500 Maiores Empresas da Madeira” ², onde constam todos os indicadores de análise tidos em consideração na atribuição de 80 prémios a empresas regionais, permite verificar que nenhum dos indicadores avalia o desempenho social e ambiental das empresas premiadas.

Sobre esta questão, convém lembrar que, no longínquo ano de 2001, a Comissão das Comunidades Europeias definiu a responsabilidade social das empresas como sendo "a integração voluntária de preocupações sociais e ambientais por parte das empresas nas suas operações e na sua interação com outras partes interessadas" ³. Por outras palavras, as empresas demonstram ter responsabilidade social quando decidem, por sua iniciativa, contribuir para um ambiente mais limpo e uma sociedade mais justa, indo além do cumprimento de todas as obrigações legais, através de maior investimento nos trabalhadores, no ambiente e nas relações com as comunidades locais e as partes interessadas.

De lembrar ainda que, em Julho de 2002, um Comunicado da Comissão das Comunidades Europeias apontava para novo rumo: “Existe hoje na esfera empresarial a perceção de que o sucesso das empresas e os benefícios duradouros para os agentes seus associados não se obtêm através de uma tónica na maximização de lucros a curto prazo, mas sim de um comportamento orientado pelo mercado, porém coerente e responsável” ⁴.

Neste contexto, fica claro que a atribuição de prémios de mérito empresarial deveria olhar para o todo da empresa e incluir critérios que permitam analisar o seu impacto social e ambiental e não apenas o seu impacto económico. Caso contrário, os prémios “Melhores Empresas” podem ser atribuídos a empresas que apresentam os melhores resultados económicos, mas que não investem nas áreas social e ambiental, podendo apresentar, nestes domínios, resultados que nada têm a ver com excelência.

Por exemplo, na área social, será que as empresas premiadas investiram em políticas de gestão de recursos humanos, tais como “práticas de recrutamento responsáveis e não discriminatórias, planos de formação e aprendizagem ao longo da vida, criação de condições de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal dos trabalhadores, e medidas para garantir a segurança dos postos de trabalho e a manutenção de altos níveis de empregabilidade” ⁵?

Em síntese, sem políticas sociais não será possível promover o bem-estar social nas empresas e, por conseguinte, a sua sustentabilidade e o reforço da sua competitividade. Sem responsabilidade social, não há excelência.

¹ “Pequenez não é irrelevância”, Diário de Notícias da Madeira, 16 de Novembro de 2016.
² “500 Maiores Empresas da Madeira”, Diário de Notícias da Madeira - Suplemento, 17 de Novembro de 2016.
³ “Livro Verde – Promover um quadro europeu para a responsabilidade social das empresas”, Comissão das Comunidades Europeias (2001).
⁴ “Comunicação relativa à responsabilidade social das empresas: Um contributo das empresas para o desenvolvimento sustentável”, Comissão das Comunidades Europeias (2002). 
⁵ “A Responsabilidade Social das Empresas”, Manuel Alves Monteiro, Cadernos do Mercado de Valores Mobiliários, 2005.

4 comentários:

Fernando Vouga disse...

Quem é esse Marques Mendes de que falam?

Anónimo disse...

Os patrões ainda usam peúga branca.

Anónimo disse...

Muitos dos candidatos a prémios apresentam contas marteladas.
O Marques Mendes não é aquele que vinha à Madeira fazer lobie pelo Joaquim Coimbra do BPN e do Colombo ?

Anónimo disse...

Esperar que a empresa capitalista tenha responsabilidade social e ambiental, é esperar que os lobos protejam as ovelhas.