terça-feira, 30 de maio de 2017


A GUERRA APOQUENTA-NOS

GAUDÊNCIO FIGUEIRA

A Europa, com a queda do muro de Berlim e o consequente fim do comunismo, sonhou alcandorar-se à condição de superpotência. Entusiasmada pela supremacia do mercado livre fomentou o desmembramento da ex-Jugoslávia na convicção de que era capaz de sozinha resolver aquele intrincado problema.

O peso da História na solução destas questões é grande. Um Estado fantoche criado por Hilter, abarcando a Croácia e a Bósnia, levou por diante uma política de genocídio contra os sérvios que, sob a liderança de Tito, saíram vencedores e, no pós-guerra, ficaram na “Cortina de Ferro”. Não foi de estranhar os ajustes de contas no fim do comunismo.


A independência da Eslovénia foi rápida e sem problemas de maior se compararmos com aquilo que vinha a caminho. Dois homens, Franjo Tujman e Radovan Karadzic, misturando de forma explosiva os conceitos de etnia e Estado, impuseram nos Balcãs um inferno que em nada serviu as pessoas. Incapazes de resolver o problema, os Europeus – Alemanha, França e Inglaterra –, pediram ajuda à NATO ou seja, aos Americanos.

A verdade que, à época, a propaganda nos contou, está longe de ser verdadeira. Passados anos já podemos fazer fé em depoimentos de não beligerantes que, postados no terreno, nos relatam o sofrimento de Seres Humanos cuja única ambição era viver em PAZ. Mas viram-se privados dela por teimosia dos mandantes. Estamos conversados sobre a Europa e seus erros.

Donald Trump é um homem que, julgo eu, se o submetessem a testes psicológicos prévios, revelaria incapacidade para o exercício do cargo para que os Americanos o elegeram. Personalidades destas caracterizam-se por, assentes numa pequena verdade, sustentarem enormes mentiras. É o caso das despesas europeias para suportar o esforço de defesa. Exigir o aumento das contribuições financeiras não pode significar a destruição do Património Comum que é a NATO. A organização pode conter o revisionismo russo, integrar pacificamente a China ao mesmo tempo que faz frente ao extremismo islâmico e aos nacionalismos.

Há vinte anos nos Balcãs, os poderosos, nada ralados com o sofrimento humano, levaram por diante as suas ambições de poder. A propaganda preparou-nos para a “condenação” Sérvia, na opinião pública. Mr. Trump, um exímio manipulador da comunicação social, nesta sua primeira saída dos EUA, ateou fogo à pradaria com a sua venda de armas à Arábia Saudita. Fiel às suas definições decretou que os Sauditas são Árabes “bons” em contraponto com Iranianos classificados como Árabes “maus”. O energúmeno municiou os “bons” sunitas – Arábia Saudita – na sua guerra religiosa contra os “maus” xiitas – Irão – apesar de, naquele Estado, os moderados terem acabado de chegar ao poder pelo voto popular. Votos, naquela cabeça, só contam aqueles que ele recolheu nos EUA. A legitimidade popular dos outros, em sua opinião, não conta para nada. Aquele voo mediático que ligou Árabes “bons” a Judeus – duas religiões há muito desavindas – faz crer aos incrédulos terráqueos que a PAZ está ali ao virar da esquina.

A Europa resolveu mal a questão dos Balcãs, mas esta Trumpice, pelo caminho que leva, será um desastre Bíblico. Vou esquecer Iraque e Yemen, ater-me-ei à Síria. Um Sírio tem todo o direito em querer pensar o seu País. Franceses, Alemães, Ingleses e Americanos “sabem” muito sobre a Síria. Só que isto já cansa os Sírios. O discurso geopolítico preocupa-se com a estabilidade regional. A isto segue-se a questão cultural centrada no Islão, no terrorismo e nos direitos das minorias. Finalmente entra em cena o discurso dos direitos humanos para quem os Sírios são vítimas de torturas e geram imensos refugiados. A direita ocidental assume como seus o discurso geopolítico e o cultural. Para a esquerda anti-imperialista a prioridade é o combate ao imperialismo e a política internacional.

Assad é um valioso peão na estratégia de domínio do Mundo pelos poderosos. Ele subordina as aspirações do Povo Sírio às mentiras da luta contra Israel. Estando o inefável Trump interessado, como diz, na PAZ, para quando ouvir este Povo sofredor que pensa e tem vontade própria? Os Sírios não acham piada nenhuma que, por acordo de amigos – Trump e Putin –, tenham de suportar Assad.

7 comentários:

amsf disse...

"Assad é um valioso peão na estratégia de domínio do Mundo pelos poderosos. Ele subordina as aspirações do Povo Sírio às mentiras da luta contra Israel."

Esta não percebi pois Assad não é conhecido por ser um "campeão" da causa palestiniana!

Parece-me que o articulista está a ser levado pela propaganda inicial da mudança de regime propagada pelo Ocidente. A diferença entre a Síria e a Líbia é que no primeiro caso não o conseguiram enquanto que no segundo caso foi uma questão de meses. Claro que depois retiraram a comunicação social para que não se percebe-se em que estado deixaram a Líbia e os Líbios. Depois admiram-se que das costas líbias nos cheguem refugiados/imigrantes às dezenas de milhar.

A vida já me insinou que motivos nobres geralmente escondem interesses inconfessáveis e que mesmo os honestos que tentam contruir o paraíso na terra acabam por construir o inferno.

O mundo ocidental não tem que andar pelo mundo a tentar formata-lo de acordo com os seus interesses e valores, especialmente pela força e de forma apressada. Podemos facilitar a mudança mas não a forçar sob perigo de criarmos tragédias que só dificultam a mudança almejada e inevitável. Tal como no judo quanto mais força empregarmos mais probabilidade haverá de o adversário sair vencedor nem que seja porque tornamo-nos no adversário externo que une e fortifica o staus quo que queremos alterar.

Anónimo disse...

pois é

Anónimo disse...

Ó Spínola, estás a precisar de umas aulitas de português para melhorares a tua capacidade de interpretação.

Anónimo disse...

Va la que desta vez a culpa não é do Alberto joao 😂😂😂

Anónimo disse...

O comentador de ontem às 11:24 não leu bem aquilo que está escrito. O autor do texto não diz que a Síria de Assad apoia a causa Palestina. Ele apenas diz que "subordina o Povo Sírio às mentiras contra Israel". Acha que o Assad não conta histórias de fazer chorar quando lembra aos Sírios a ocupação dos Montes Golan em 1967?
Ele é realmente um peão nas mãos dos "compadres" Trump e Putin para quem mais mortos e refugiados nada representa desde que eles tenham o Poder. Os três aão guaizinhos ao Maduro e ao Eduardo Santos.

amsf disse...

Ao anónimo das 09:16
O que é que a guerra civil Síria tem que ver com o conflito com Israel por causa dos Montes Golan?! Eu a pensar que se tratava de uma guerra civil com dezenas de grupos armados a serem apoiados por diferentes países mas afinal trata-se de uma guerra entre Israel e a Síria! Sei que Israel já aproveitou para bombardear o Hezbollah do Líbano na Síria e sei que Israel tem dado apoio médico à ex-Al Nustra (ramo da Al-Qaida) mas não sabia que o Assad afirmava junto da sua opinião pública que a guerra era entre Israel e Síria por causa dos Montes Golan!!! Parece que tenho que procurar outras fontes de informação...

O Assad agora é peão do Trump?! O tal Trump que bombardeou com 59 mísseis de cruzeiro um aeroporto militar sírio sob pretexto de que dali partira um ataque químico?! O tal Trump que reforçou o envio de apoio militar ao curdos que também combatem o Assad?! O Trump que acaba de assinar um contrato de fornecimento de armas superior a 110 mil dólares à Arábia Saudita sendo que algumas dessas armas irão parar, como no passado recente, a extremistas islâmicos?! Já me esquecia que o Trump é um agente russo. Deve ser um agente da Manchúria!
Ainda há quem ache que os presidentes americanos mandam alguma coisa na América quando se vê toda esta reação do complexo militar e securitário americano contra o Trump que vem comprovar que ou um presidente se submete a essa gente ou diabolizam-no junto da opinião pública.
Quando o Trump se adaptar à função, ou seja quando simplesmente assinar as ordens que lhe põem na secretária passará de besta a bestial e terá uma boa comunicação social a recuperar a sua imagem e a dos EUA. E não será outra comunicação social mas a mesma que agora o ridiculariza.

Anónimo disse...

Para perceber aquilo que vai na cabeça dos poderosos tem de pensar nas pessoas e esquecer as ideologias que tem na cabeça e que ainda vêm da guerra fria.
Aí a Síria era anti-israeliata. Já esqueceu isso?
Os curdos, fala bem, um Povo sofredor desde a 1ª guerra, para ir mais para trás v´tima dos Srs. da guerra ao longo da história.