terça-feira, 25 de abril de 2017

Mais um Abril


A ditadura morreu e viva o velho



Foi há 43 anos que todos acreditámos ingenuamente no poder dos cravos. Cantando 'E depois do Adeus' e 'Grândola', o povo julgou enterrar três símbolos de um regime caduco: os tais três Efes.
Ilusão. Que resultou mesmo desses funerais tão festejados? Mudou isto: 


- Futebol: naquele tempo, os adeptos iam para o estádio consumir o chamado 'ópio do povo'; actualmente, a caminho do rectângulo, vão para a guerra
- Fátima: este F, muito influente no regime salazarento, não perdeu influência no viver 'democrático'. Estão preparados para o próximo 13 de Maio?
- Fado: se à 'canção nacional' eram atiradas pedras pela intelectualidade lusitana, ei-la hoje a trinar guitarra afinadinha para as esquerdas que lhe vieram comer à mãozinha - ouçam-se os ecos da Praça do Município, ontem no Funchal.
De bom, o 25 de Abril trouxe a hibernação da direita radical portuguesa e uns tempos de euforia libertadora e esperança na justiça social a todos os níveis. Esperança, apenas. Portugal não correspondeu aos ideais que acenaram felicidade na aurora libertadora.
Sim, a liberdade. A democracia. Vacas sagradas tratadas nas casas onde se albergam hoje os profissionais da política, os espertos oportunistas que se apropriaram dos ventos deste Abril que alguns ainda comemoram. Eles mudaram a face de Portugal. E da Madeira. O povo tem de agradecer aos políticos que nos deram tanta coisa. Seja. Mas faz azia quando nos lembramos da obra monumental do Dr. Fernão de Ornelas programada em part-time, já que o homem trabalhava com afinco no Banco da Madeira e só aos bocadinhos traçava planos de obras com vereadores amadores, sem secretárias nem carros oficiais nem cartões dourados. Por vezes lembramo-nos de um parlamento muito caro que há pr'aí sem nada legislar de útil para quem elege os novos profissionais da política. E lembramo-nos do governo regional, com menos poderes actualmente do que a Junta Geral de antanho. Uma classe política que invocou a conquista da autonomia para chegar ao alto dos cargos bem pagos e que hoje se borrifa para ela, jazendo no charco das benesses e arrastando consigo o orgulho de várias gerações de madeirenses.
E às vezes vem à ideia este País de carnavais, hooligans, falsários e assaltantes de banco (por dentro), políticos corruptos, telenovelas e mais telelixo descarado ou encoberto.
Da minha parte, festejo hoje a morte temporária, em 1974, da brigada reumática salazarista e os tempos de loucura cheia de liberdade e de liberdades no pós revolução. Podia dar-me para pior, mas é o que temos no Abril de todos os regressos.       

3 comentários:

Anónimo disse...

Luís Calisto,

Parabéns pelo seu texto.
Realmente como madeirense, fico envergonhado com a classe politica actual que, independentemente do partido a que pertence, administra a coisa publica.
Compara-los com as figuras de gerações anteriores que passaram pela vida civica e publica da nossa terra, é um exercício de tortura e masoquismo.

Anónimo disse...

Gostei do texto.
No entanto, o enterro, não concretizado dos 3 Fs, merece-me um comentário.Ainda bem que não foram enterrados.Porque teriam? Falamos de uma actividade desportiva, de uma forma de manifestação de Fé e de uma expressão musical.Vem esta questão também, a propósito de falar de democracia e de liberdade. Nem mais.
O que sabe a muito pouco, é ver que, volvidos tantos anos, a democracia ainda é o que é.Democracia participativa? Sociedade civil forte? Aceitação e convivência com a diversidade?Exigência política e dedicação ao bem comum?
Quantos caminhos terão ainda de ser percorridos, quantos ? Quarenta e tal anos depois,queríamos mais.Queríamos que todos fossemos mais e melhores?Pois queríamos.



Raghnar disse...

Bem, o objectivo não seria mesmo "enterrar" os três Efes, apenas extinguir a sua utilização instrumental pelo poder político.

Quem se lembra do momento do anúncio do pedido de "assistência" financeira aos investidores internacionais pode confirmar que esse aproveitamento continua bem presente. E é apenas um pequeno exemplo...