segunda-feira, 10 de abril de 2017

Reflexão



A incrível tragédia


Vitorino Seixas


A expressão em título é de Jean Claude Junker que, impressionado com os números aterradores do desemprego jovem nas Regiões Ultraperiféricas (RUP), classificou essa realidade como a “incrível tragédia” ¹. No seu discurso, no 4º Fórum das RUP, o Presidente da Comissão Europeia aproveitou para pôr os pontos nos is: “Temos de conjugar esforços, no combate ao desemprego, essa é uma responsabilidade nossa e dos governos. É partilhada. A UE não tem resposta para tudo” ¹.

Neste contexto, de responsabilidade partilhada, o que tem sido feito pelo governo regional? Comecemos por analisar os números do desemprego jovem na Madeira tendo em consideração o quadro da “Evolução do Desemprego Jovem na Madeira” ², elaborado com base nas Estatísticas de Emprego da RAM, publicadas pela Direção Regional de Estatística da Madeira (DREM). Basta uma leitura superficial para constatarmos que os números do quadro não conferem com os números do governo regional. As estatísticas divulgadas no 4º Fórum ¹ referem que a taxa de desemprego na Madeira é de 14,7% e a taxa de desemprego jovem de 50,6%, sem indicar o mês ou ano a que se referem essas taxas. No entanto, na análise efetuada às estatísticas regionais verificou-se que a taxa de 14,7% de desemprego ocorreu no 4º trimestre de 2015 e coincide com a média anual de 2015. Assim, se considerarmos o ano de 2015, segundo as estatísticas da DREM, a taxa de desemprego jovem foi de 42,8% e se considerarmos o 4º trimestre de 2015 foi de 38,4%. Entretanto, a taxa de desemprego jovem baixou para 37,4% no 4º trimestre de 2016.

Face à divergência apurada, qual é o interesse do governo regional em divulgar, por ocasião do 4º Fórum das RUP, uma taxa de desemprego jovem que não corresponde à realidade? Será que publicando taxas muito altas o governo regional acredita que o Presidente da Comissão Europeia ficará sensibilizado para a “incrível tragédia” e dará mais uns milhões para a Madeira e as RUP combaterem o desemprego jovem?

Acresce que, uma análise mais pormenorizada do quadro da “Evolução do Desemprego Jovem na Madeira” ² permite constatar que as estatísticas da DREM, que apresentam valores não coerentes com o histórico de anos anteriores, suscitam as maiores dúvidas quanto á credibilidade das estatísticas. Para termos uma ideia, façamos uma comparação com as estatísticas publicadas pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) ³ que constam do quadro “Evolução do Desemprego Jovem em Portugal” ⁴, as quais incluem os Açores e a Madeira.

Neste quadro, verificamos que as variações entre os quatro trimestres de 2016 e entre o ano de 2015 e 2016 são relativamente pequenas quando comparadas com as variações apuradas no quadro relativo à Madeira. Por exemplo, a população ativa jovem na Madeira teve uma redução de 23,9% entre o 4º trimestre de 2016 e o de 2015, quando a nível nacional teve uma redução de 1,8%, ou seja, 13 vezes menos. Mais, a população empregada jovem na Madeira teve uma redução de 22,7% entre o 4º trimestre de 2016 e o de 2015, quando a nível nacional teve um aumento de 5,5%.

Em síntese, na Madeira, a população ativa jovem desceu 23,9%, a população empregada jovem desceu 22,7% e a população desempregada jovem desceu 26,0%. Três descidas que constituem um “fenómeno único” cuja explicação está no segredo dos deuses do governo regional. Não deixa de ser muito estranha a descida da população jovem desempregada quando a população jovem empregada também desce. Por outras palavras, há menos jovens desempregados, mas não cresceu o número de jovens empregados. Pelo contrário, também desceu, quase na mesma percentagem.

No entanto, a situação é ainda mais estranha quando observamos que a nível nacional as variações dos três indicadores (população ativa, empregada e desempregada) são muito reduzidas, entre o 3º trimestre e o 4º trimestre de 2016, oscilando entre uma redução de 0,7% e um aumento de 4,3%, quando na Madeira se verificam reduções entre 21,2% e 28,3%. Outro “fenómeno único” é a elevada redução de 15% na taxa de desemprego jovem na Madeira, entre o 3º trimestre e o 4º trimestre de 2016, quando a nível nacional há um aumento de 4,1%.

Perante as estatísticas do quadro “Evolução do Desemprego Jovem na Madeira” ² pode concluir-se que a taxa de desemprego jovem baixou, essencialmente por duas razões: uma grande limpeza de desempregados jovens e um aumento da emigração jovem.

Contra factos não há argumentos. Na verdade, há uma tragédia no desemprego jovem na Madeira, mas a “incrível tragédia” é esconder os jovens debaixo do tapete da população inativa, condenando-os a um futuro perdido.

¹ Juncker quer travar “incrível tragédia”

² “Evolução do Desemprego Jovem na Madeira”
³ “Boletim Estatístico” do Gabinete de Estratégia e Planeamento
⁴ “Evolução do Desemprego Jovem em Portugal”

3 comentários:

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...

E ninguém comenta o Seixas ? Nem sequer aquele que está sempre à espera que ele malhe na gestão cafofiana ?

Eu, O Santo disse...

Contra factos não há argumentos.
Pode-se discutir o incerto, i.e., situações em que podem existir várias versões e interpretações dos factos. Exemplo. A cor das cuecas de Albuquerque é um tema de discussão. O peso de um diamante não é discutível.
Fala-se sobe o que se conhece e sobre o que pensa que se conhece.
Em face do exposto, não há comentários. Este tema foi exposto na publicação "Boatos"