terça-feira, 18 de abril de 2017

Opinião




INDISCIPLINA CÍVICA


GAUDÊNCIO FIGUEIRA


Durante largo tempo, a comunicação social escalpelizou a cadente questão da mudança de nome do aeroporto de Santa Catarina para CR7. Passado o ruído, rapidamente a atenção das pessoas foi desviada para outros factos.

Desta vez, o assunto é bem mais sério. A Comunicação Social deu-nos conta de actos de indisciplina cívica que, pondo em causa a segurança de pessoas e bens, a todos preocupa. Temos por adquirido que cabe ao Estado o uso da força, nos limites da lei, para nos garantir que nada de mal nos acontece. É essa disciplina cívica que leva o Estado a gastar dinheiro nas viaturas da PSP com a inscrição Escola Segura.

O mediático futebol, de repente, acordou para a violência que, grassando desde há muito, sempre se ignorara. Juntou-se-lhe o “clássico” das Férias de Páscoa em Espanha. Nenhum destes factos que agora extravasaram para a comunicação social é novidade. Enquanto eles se limitaram a aparecer em pequenas notícias dispersas não demos conta de nada. Quem não se recorda de ler/ver notícias de espectáculos futebolísticos onde ocorreram mortes? Quem nunca viu enquadramentos policiais de frequentadores de espectáculos futebolísticos como se de “guerreiros” se tratassem? Quem não se recorda de, em Páscoas anteriores, ter lido notícias de desacatos feitos por estudantes?

Dar o nome do Cristiano Ronaldo ao aeroporto, não interfere directamente connosco. Pode bem a questão ser tratada sem reflectirmos sobre ela. Diferente, muito diferente, é não reflectirmos sobre a formação dos nossos jovens, ou admitirmos que se coloquem em risco Pessoas e Bens. Nestes casos urge ir ao cerne da questão. Cabe, à Comunicação Social, para mais numa sociedade com apenas 43 anos de Liberdade de Expressão, uma função didáctica para que os cidadãos distingam o essencial do acessório.

Estaremos nós a garantir uma boa formação aos nossos jovens? Não lemos, não vimos, nem ouvimos notícias que, há anos, nos dão conta de bulling nas escolas, de papás indignados que, impunemente, ousam esbofetear Profs. por cometerem o “crime” de não deixarem os educandos usarem o telemóvel nas aulas? Quantas notícias vimos/lemos de professores com problemas do foro psíquico pelo desrespeito permanente de que eram vítimas nas escolas? A comunicação social, muita dela, deu estas notícias, outra (mais do que seria desejável) escondeu-as. Acho que nenhuma comunicação social – comentadores incluídos – fez pensar as pessoas sobre as consequências desta demissão de quem mandava. Gerámos e gerimos, em 43 anos, um sistema educativo, onde filhos e netos ficaram adolescentes – não assumem a responsabilidade dos seus actos – a vida inteira. Alguém, os eleitos por nós na companhia dos nomeados para coadjuvá-los na Administração Pública, deveria estar atento a este Interesse Colectivo que é formar Cidadãos responsáveis.

O futebol, nos nossos dias, beneficia de facilidades financeiras, impensáveis no passado. Vive em mancebia com a especulação financeira gerando negócios que, em última instância, podemos acabar pagando. Basta que as avultadas dívidas de muitos clubes à banca, obtidas na promiscuidade entre os poderes político e financeiro, se transformem em imparidades para sermos chamados a pagar. Os clubes fazem vida de ricos, e criam poderosas centrais de propaganda que, alimentando o mito do “amor à camisola” junto dos fervorosos adeptos, os levam a confundir desporto com espectáculo futebolístico. Foi notícia, não desmentida, que o responsável pela propaganda de um dos clubes do nosso futebol aufere um salário de € 5.000 mês. O felizardo, se calhar declara, para o IRS, o salário mínimo. Quem manda aceita e promove estas aberrações.


Não parece, eu sei, mas a sociedade da riqueza virtual em que vivemos está perigosa. Os jovens, a quem tudo facilitámos, tornaram-se irresponsáveis e, mais grave, ficaram sem futuro graças a pusilanimidade vigente. A sociedade do futuro estará ainda mais dividida entre aqueles que serão remunerados a partir da riqueza financeira – começando no Goldman Sachs, acabando no hiper-bem-pago director de comunicação do clube de futebol – com os profissionais das várias actividades, possuidores de formação superior, pagos pelo salário mínimo ou desempregados dependurados na magra reforma dos pais.  

8 comentários:

Anónimo disse...

A comunicação social não se substitui, aos pais, e escolas, para educar/instruir .

Anónimo disse...

Essa função didatica nåo cabe à comunicação social. No entanto o Serviço Publico poderia muito bem ter esse designio, ja que nao depende da publicidade e das audiênciss. A Radio e Televisao do Estado têm esse dever e ha alguns espaços nesse sentido.
Já os jornais, agonizados pela concorrencia da net , até são remunerados para fazerem entrevistas, cobrirem atividades politicas, autarquicas, etc. coisa impensàvel para a ética jornalistica.
Os que melhor sobrevivem estão infelizmente dominados pelo populismo, pelas noticias dos dramas sociais, dos crimes, etc.

Anónimo disse...

Claro que a comunicação social informa, divulga, ... até com algum sensacionalismo. Mas é só noticia de abertura e fica-se por aí. Com um regime "jovem", imaturo, onde por vezes roça o irresponsável, as consequências dos atos não são devidas e muitas das vezes não dá lugar tambem a noticia (pelo menos noticiar castigo exemplar).
Veja-se os recursos ad infinitum nos tribunais, os processos disciplinares nas nossas escolas, vandalismos na via publica, e por aí fora ...

Anónimo disse...

Concordo com quase tudo. Não concordo que a questão do nome do aeroporto é de menor importância e que foram os media que alimentaram esse assunto. Um presidente ter a ideia tonta de mudar o nome de um aeroporto contra a vontade dos madeirenses não é assunto de menor importância.

A comunicação social podia ter feito muito mais para desmascarar a palhaçada que foi a reinauguração do nosso aeroporto.
1 - podiam ter colocado em evidência que a mudança do nome do aeroporto foi a única promessa que o Albuquerque cumpriu. E que essa promessa foi feita ao Ronaldo e não à população. As promessas que foram feitas à população e que realmente interessava aos madeirenses, ferry, hospital, fim do monopólio nos portos, mobilidade, etc, essas não foram cumpridas.
2 - podiam ter revelado ou investigado o falso apoio popular no aeroporto no dia da cerimónia. Levaram autocarros carregados de crianças e adolescentes das escolas de Santo António e outras. O povo que apoiava a mudança do nome do aeroporto na cerimónia eram... crianças. Não brinquem comigo! A comunicação social nada fez para revelar tal logro. Pelo contrário, na RTP Madeira ouviam-se os jornalistas a exaltar o ruído da multidão no exterior do aeroporto como se os madeirenses tivessem ido em massa ao aeroporto para apoiarem a mudança do nome do aeroporto. Isso não aconteceu, não houve apoio popular à mudança do nome, mesmo tratando-se do Cristiano Ronaldo, uma personagem querida aos madeirenses.
3 - podiam ter comentado o discurso do Ronaldo na cerimónia quando ele disse que o Albuquerque teve muita coragem para por o nome de CR ao aeroporto. Que outra explicação pode haver para essa "coragem"? Até o Ronaldo sabia que essa mudança não era bem vista pelos madeirenses!
4 - podiam ter comentado o teor do discurso do Presidente da República que, todo ele, implicitamente discorda com a atribuição do nome do Cristiano Ronaldo ao aeroporto, a uma pessoa viva.
5 - podiam ter tentado saber o porquê do silêncio do Primeiro Ministro naquela cerimónia.
ETC

Enfim, podiam ter informado, mas não, preferiram cavalgar a onda do Cristiano Ronaldo e engraxar as botas da estrela futebolística, como fez o Albuquerque.
Agora temos um aeroporto, por onde todos somos obrigados a passar para viajar. E sempre que ouvirmos o nome do Cristiano Ronaldo quando aterrarmos ou descolarmos vamos nos lembrar do que foi capaz de fazer aos madeirenses o Presidente das promessas falhadas, o Albuquerque.

Raghnar disse...

Hoje aplaudo de pé Dr. Gaudêncio, subscrevo totalmente.

Agora, quando muitas pessoas se levantam de madrugada para adquirir um bilhete para um jogo de pontapé na bola mas muitas não o fariam se a sua entidade empregadora solicitasse que se apresentassem a essa hora para trabalhar, ganhando o valor do bilhete, está tudo dito sobre as prioridades da maioria da sociedade.

À falta de pão comemos circo...

Fernando Vouga disse...

A comunicação social é uma indústria que, como as demais, se destina a fazer dinheiro. Tem de apresentar lucros, pagar impostos, bem como ao pessoal e pagar os custos da produção.
A informação, sendo apenas o produto da actividade, é condicionada pela necessidade de conquistar audiências que, no fim da linha, são encharcadas com publicidade e propaganda. E mesmo a estatal não pode ignorar a necessidade de, pelo menos , não dar grandes prejuízos.
Assim sendo, não se pode esperar muita isenção e objectividade.

Jorge Figueira disse...

Fernando Vouga deixou-nos um resumo muito bem feito.
Eu apenas quis alertar para a necessidade do cidadão comum não se deixar enlear por jornais e jornalistas que vendem textos "prontos a engolir".
Aquilo como o pronto a vestir nem emendas são necessárias

Anónimo disse...

A Comunicação Social Estatal não tem que embarcar nas mesmas baboseiras que enchem as manhãs e as tardes dos canais privados, que são autênticos atestados de ignorância popular.