segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Reflexão



“Factos alternativos” 
sobre o desemprego na Madeira


Vitorino Seixas

O Instituto Nacional de Estatística (INE) ¹ divulgou, no passado dia 8 de fevereiro, que a criação de emprego líquida contribuiu para a redução de 90,5% do desemprego nacional no 4º trimestre de 2016. Numa análise dos dados anuais divulgados constata-se que o contributo da criação de emprego líquida para a redução da população desempregada em Portugal tem vindo a aumentar, atingindo 54,3% em 2014, 61,9% em 2015 e 76,9% em 2016.

Perante estes indicadores nacionais, que mostram que a criação de emprego líquida é o fator que, cada vez mais, contribui para a redução do desemprego, qual é a situação na Madeira?

Numa primeira análise do mapa “Evolução Trimestral do Desemprego em 2016” ² constata-se que o contributo anual da criação líquida de emprego para a redução do desemprego foi de 69% em 2014, de 175% em 2015 e de 80% em 2016. Nestes contributos há um resultado, o relativo a 2015, que se destaca pois há a criação de 700 empregos, mas a redução do número de desempregados é de 400, um número bastante inferior, o que contraria o pensamento dominante nas políticas de combate ao desemprego: “para reduzir o desemprego é preciso criar emprego”.

Fazendo a análise trimestral dos dados de 2016, verificamos que o contributo trimestral da criação líquida de emprego para a redução do desemprego foi de 531,4% no 1º trimestre e de 107,2% no 2º trimestre. Mais uma vez, nos 1º e 2º trimestres temos uma criação de emprego líquida superior à redução da população desempregada. Por exemplo, no 1º trimestre criaram-se 1.573 empregos, mas a redução de desempregados foi, apenas de 296, ou seja, cinco vezes menos. No 3º trimestre temos mais uma situação “sui generis” em que, apesar dos números não serem muito significativos, há criação de emprego, mas o desemprego aumenta. No entanto, o resultado mais surpreendente é o do 4º trimestre, onde se regista uma destruição de 1.113 empregos e uma redução de 3.394 desempregados, ou seja, esta redução trimestral corresponde a 66,4% da redução anual do desemprego regional. Por outras palavras, “reduziu-se o desemprego, destruindo emprego”, um “facto alternativo” ³ gritante.

Mas, as estatísticas regionais revelam outros “factos alternativos”. Em 2016 a população ativa cresceu suavemente nos 3 primeiros trimestres, para decrescer acentuadamente 4.507 pessoas no 4º trimestre, um número que é quase o dobro do decréscimo anual da população ativa (2.468). Em contrapartida, nos 3 primeiros trimestres registou-se uma queda da população inativa para se registar um crescimento acentuado de 3.775 pessoas no 4º trimestre.

Pelo exposto, conclui-se que no 4º trimestre de 2016 se registou um “facto alternativo”, caracterizado por um crescimento acentuado da população inativa, num contexto em que há um decréscimo acentuado da população desempregada e da população empregada. Para termos uma ideia da dimensão do fenómeno basta dizer que, no 4º trimestre, o desemprego teve uma redução de 19,4%, o que indicia uma “limpeza de desempregados” sem precedentes.

Mas, se analisarmos o mapa “Evolução Mensal do Desemprego em 2016” ⁴ constatamos que no final de 2015 havia 22.777 desempregados e que o número de “desempregados desaparecidos” totalizou 9.101, ou seja, 40% dos desempregados desapareceram em 2016, o que espelha a dimensão anual da “limpeza de desempregados”.

Neste contexto, não se compreende que o Instituto Nacional de Estatística, que tem como missão produzir e divulgar informação estatística oficial de qualidade, e o Eurostat, como autoridade estatística da União Europeia, se tenham demitido do seu papel de garantir a credibilidade das estatísticas e tenham validado tantos “factos alternativos” sobre o desemprego regional?

PS: "Factos alternativos não são factos. São mentiras" ³, Chuck Todd

¹ “A taxa de desemprego situou-se em 10,5% no 4º trimestre e em 11,1% no ano de 2016”, INE
² “Evolução Trimestral do Desemprego em 2016”
³ O termo "factos alternativos" foi utilizado por Kellyanne Conway, Conselheira de Donald Trump, numa entrevista de Chuck Todd, a 22 de janeiro de 2017
⁴ “Evolução Mensal do Desemprego em 2016”

1 comentário:

Anónimo disse...

O Sr. Vitorino sabe que o INE e o IEM utilizam metodologias diferentes ou faz de conta que não sabe? Haja pachorra para a sua "vontade alternativa", Sr. Vitorino. Haja pachorra...