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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Crise


 
Enviaram-nos este texto publicado no i que também achamos excelente para exercitar o raciocínio através dos meandros da crise. Será que Merkel e companhia ouvem um Nobel como o norte-americano Krugman, que queimou as pestanas a estudar para saber explicar os efeitos práticos da demolidora globalização e das economias de escala? Claro que não ouvem. O artigo que reproduzimos com a devida vénia talvez explique ao Leitor porquê.  
 
Paul Krugman
O Nobel norte-americano bem pode gastar o latim.
 
 
Paul Krugman
 
Era possível acabar com esta crise já. Se “eles” quisessem


 
 
Os instrumentos económicos existem, mas a opinião política dominante proíbe o fim da crise. Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, apela ao fim dessa corrente austeritária, sacrificial e assassina de empregos. Ana Sá Lopes leu e gostava de assinar por baixo


Por Ana Sá Lopes

Nestes últimos três anos caiu-nos uma depressão em cima da cabeça, e o que fizemos? Procurámos culpados. O “viver acima das nossas possibilidades” e “os malefícios do endividamento” são duas cantigas populares dos últimos anos. E, no entanto, antes de a crise ter rebentado na América e de se ter propagado à Europa, o nível de endividamento de alguns dos países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, tinha vindo a reduzir-se. Os gráficos estão lá e mostram que sim (como mostram que o gigante alemão também está fortemente endividado). Mas porque é que as pessoas não querem acreditar nisto? Nem sequer apreender o facto de terem sido “praticamente todos os principais governos” que, “nos terríveis meses que se seguiram à queda do banco de investimento Lehman Brothers, concordaram em que o súbito colapso das despesas do sector privado teria de ser contrabalançado e viraram-se então para uma política orçamental e monetária expansionista num esforço para limitar os danos”? A Comissão Europeia e a Alemanha estavam “lá”. E, de repente, tudo mudou.


Uma das maiores dificuldades de lidar com esta crise é, em primeiro lugar, o facto natural de tanto o cidadão comum como Jesus Cristo não perceberem nada de finanças, a menos quando lhe vão ao seu próprio bolso (ou perde o emprego). A outra é o poder da narrativa do “vivemos acima das nossas possibilidades”, aquilo a que Krugman chama a “narrativa distorcida” europeia , “um relato falso sobre as causas da crise que impede verdadeiras soluções e conduz de facto a medidas políticas que só pioram a situação”. Krugman ataca “uma narrativa absolutamente errada”, consciente de que “as pessoas que apregoam esta doutrina estão tão relutantes como a direita americana em ouvir a evidência do contrário”.
 
Três quartos do livro-manifesto “Acabem com esta crise já” é dedicado aos Estados Unidos, pátria de Krugman. Mas tendo em conta o nosso “interesse nacional”, centremo-nos no que diz sobre a Europa.
 
Krugman refuta a explicação popular e maioritária sobre a situação actual na Europa – países sob tutela de troika e pedidos de resgate à média de dois por ano.
“Eis, então, a Grande Ilusão da Europa: é a crença de que a crise da Europa foi essencialmente causada pela irresponsabilidade orçamental. Diz essa história que os países europeus incorreram em excessivos défices orçamentais e se endividaram demasiado – e o mais importante é impor regras que evitem que isto volte a acontecer”.
Krugman aceita que a Grécia (e Portugal, "embora não à mesma escala") incorreu em “irresponsabilidade orçamental”, mas recusa a “helenização” do problema europeu.
“A Irlanda tinha um excedente orçamental e uma dívida pública reduzida na véspera do deflagrar da crise (...)
A Espanha também tinha um excedente orçamental e uma dívida reduzida.
A Itália tinha um alto nível de endividamento herdado das décadas de 1970 e 1980, quando a política era realmente irresponsável, mas estava a conseguir fazer baixar de forma progressiva o rácio do endividamento em relação ao PIB”.
Ora, um graficozinho do FMI demonstra que, enquanto grupo, “as nações europeias que se encontram actualmente a braços com problemas orçamentais conseguiram melhorar de forma progressiva a sua posição de endividamento até ao deflagrar da crise”. E foi só com a chegada da crise americana à Europa que a dívida pública disparou. Explicar isto aos “austeritários” é uma tarefa insana. Diz Krugman: “Muitos europeus em posições-chave – sobretudo políticos e dirigentes na Alemanha, mas também as lideranças do Banco Central Europeu e líderes de opinião espalhados pelo mundo das finanças e da banca – estão profundamente comprometidos com a Grande Ilusão e nada consegue abalá-los por mais provas que haja em contrário.
Em consequência disso, o problema de responder à crise é muitas vezes formulado em termos morais: "as nações estão com problemas porque pecaram e devem redimir-se por via do sofrimento". Ora é esta exactamente a história que nos conta o governo e que é, segundo Paul Krugman, “um caminho muito mau para se abordar os problemas que a Europa enfrenta”.
 
Ao contrário do que muita gente possa pensar, Krugman não é um perigoso socialista. E, céus, até defende a austeridade (alguma, mas não esta). Vejam como ele explica a crise espanhola, que considera a crise emblemática da zona euro: “Durante os primeiros oito anos após a criação da zona euro, a Espanha teve gigantescos influxos de dinheiro, que alimentaram uma enorme bolha imobiliária e conduziram a um grande aumento de salários e dos preços relativamente aos das economias do núcleo europeu [Alemanha, França e Benelux]. O problema essencial espanhol, do qual derivam todos os outros, é a necessidade de voltar a alinhar custos e preços. Como é que isso pode ser feito?”
O Nobel explica: “Poderia ser feito por via da inflação nas economias do núcleo europeu. Imagine-se que o BCE seguia uma política de dinheiro fácil enquanto o governo alemão se empenhava no estímulo orçamental; isto iria implicar pleno emprego na Alemanha mesmo que a alta taxa de desemprego persistisse em Espanha. Os salários espanhóis não iriam subir muito, se é que chegavam a subir, ao passo que os salários alemães iriam subir muito; os custos espanhóis iriam assim manter-se nivelados, ao passo que os custos alemães subiriam. E para a Espanha seria um ajustamento relativamente fácil de fazer: não seria fácil, seria "relativamente fácil".
 
Ora, esta maneira “relativamente fácil” de resolver a crise europeia tem estado condenada (vamos ver o que se segue ao novo programa de compra de dívida do BCE, criticado pelo presidente do Bundesbank) pela irredutibilidade alemã relativamente à inflação, “graças às memórias da grande inflação ocorrida no início da década de 1920”. Krugman lembra bem que estranhamente “estão muito mais esquecidas as memórias relativas às políticas deflacionárias do início da década de 1930, que foram na verdade aquilo que abriu caminho para a ascensão daquele ditador que todos sabemos quem é”.
 
O que trama as nações fracas do euro (como Espanha e Portugal) é, não tendo meios de desvalorizar a moeda – como fez a Islândia no rescaldo da crise com sucesso – estão sujeitas ao “pânico auto--realizável”. O facto de não poderem “imprimir dinheiro” torna esses países vulneráveis “à possibilidade de uma crise auto-realizável, na qual os receios dos investidores quanto a um incumprimento em resultado de escassez de dinheiro os levariam a evitar adquirir obrigações desse país, desencadeando assim a própria escassez de dinheiro que tanto receiam”.
É este pânico que explica os juros loucos pagos por Portugal, Espanha e Itália, enquanto a Alemanha lucra a bom lucrar com a crise do euro – para fugir ao “pânico” os investidores emprestam dinheiro à Alemanha sem pedir juros e até dando bónus aos alemães por lhes deixarem ter o dinheirinho guardado em Frankfurt.
 
Se Krugman defende que “os países com défices orçamentais e problemas de endividamento terão de praticar uma considerável austeridade orçamental”, defende que para sair da crise seria necessário que “a curto prazo, os países com excedentes orçamentais precisam de ser uma fonte de forte procura pelas exportações dos países com défices orçamentais”.
Nada disto está a acontecer. “A troika tem fornecido pouquíssimo dinheiro e demasiado tardiamente” e, “em resultado desses empréstimos de emergência, tem-se exigido aos países deficitários que imponham programas imediatos e draconianos de cortes nos gastos e subidas de impostos, programas que os afundam em recessões ainda mais profundas e que são insuficientes, mesmo em termos puramente orçamentais, à medida que as economias encolhem e causam uma baixa de receitas fiscais”. Conhece esta história, não conhece?
 
 

3 comentários:

Anónimo disse...

Tenho pena que a iliteracia financeira e económica permita dar credibilidade a estas asneiras. Até naquilo que são factos o sr. Krugman não é honesto:

"[...]o nível de endividamento de alguns dos países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, tinha vindo a reduzir-se[...]"
Os gráficos deste sr. devem estar invertidos como a nossa bandeira!
"[...]concordaram em que o súbito colapso das despesas do sector privado teria de ser contrabalançado e viraram-se então para uma política orçamental e monetária expansionista[...]" Como é evidente não é verdade, o que fizeram foi injectar dinheiro nos mercados financeiros para que estes não falissem. Aliás em concordâncias com as teorias desse sr.

Resumindo: o sr. Krugman é um Keynesiano que defende a utilização dos dinheiros públicos como forma de criar inflação e assim resolver o problema das dívidas insustentáveis. Só que se esquece que o subprime foi isso mesmo, foi a criação de uma bolha imobiliária que permitia investimentos com lucros garantidos com base na especulação imobiliária (inflação) até ao dia em que deixou de haver procura para as casa que se construiam não por necessidade mas porque eram um negócio garantido. A ideia deste sr. é que a riqueza acumulada perca valor via inflação e assim seja obrigada a entrar no mercado financeiro como forma de garantir que não perde poder de compra e assim perpectuar a inflação que garantiria que um salário no ano seguinte seria sempre superior ao do ano anterior, que qualquer coisa comprada o ano passado valesse sempre mais no ano seguinte, que uma dívida contraida há 5 anos fosse comparativamente mais facil de suportar pela sua desvalorização. No entanto esse sr. parece desconhecer os perigos da hiperinflação. Uma fortuna deve ter um papel social que passe pelo seu reinvestimento no entanto uma moeda que não tenha o mínimo de capacidade de reter valor seria desprezada pelos investidores internacionais que querem o mínimo de estabilidade.

amsf

Luís Calisto disse...

Caro Comentador

Puseram-me a estudar teorias do fóssil do liberalismo Adam Smith logo a iniciar os estudos de económicas e financeiras no ISCEF (curso que interrompi, esclareça-se) mas nem por isso vou chamar de ignorantes os pedagogos da época, embora alguns provavelmente o fossem.
Se o Krugman é credível ou não, apesar de laureado com o Nobel, é com cada um. Eu acho que é, teorias económico-financeiras (e sociais) à parte.
Agora, desde que belisque a selvagem sra Merkel... já somos dois, pelo menos.

Anónimo disse...

Concordo com o primeiro comentário. Estes argumentos keynesianos da treta deviam ser dismistificados de uma vez por todas. Dizer que os países devem gastar mais dinheiro em altura de crise é o mesmo que dizer a um indivíduo que perdeu recentemente o emprego para ir a um centro comercial gastar tudo o que tem num cartão de crédito. É este tipo de argumentos da treta que não têm o mínimo de senso comum e que no entanto são defendidos pelos seguidores da doutrina de Keynes, que tem servido de base das economias globais, e que tiveram grande responsabilidade na situação que muitos países estão agora a atravessar. E o que ele diz em relação à crise da Europa não se ter devido à perda de confiança dos mercados nos países com elevados défices orçamentais é simplesmente falso: basta ver os dados da última decada para perceber que não só as dívidas dos países em geral aumentaram todos os anos, como se verifica que o pico dos seus défices foi atingido imediatamente antes da crise rebentar.
Não é que as políticas da austeridade que têm sido seguidas na Europa tenham sido melhores (porque o problema de países como Portugal e Grécia é o próprio euro...), mas as políticas que o Sr Krugman defende, de intervencionismo do estado na economia, são as mesmas que têm sido seguidas no EUA, e os resultados ficaram muito aquem do esperado, uma vez que o crescimento económico tem sido muito lento e a taxa de desemprego não tem decrescido significativamente, com a agravante do país ter agora uma dívida ainda maior e de correr um perigo sério de inflação da própria moeda, o que poderá trazer consequências ainda piores do que a crise de 2008.