quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O Diário de Notícias e os sem-abrigo



O tico e o teco


Vivemos tempos estranhos, num mundo cada vez mais estranho. Poucos escapam a esta epidemia global, na qual algumas pessoas parecem funcionar apenas com dois neurónios: o tico e o teco.
Nem o Diário de Notícias escapou. Sem qualquer pudor, faz a manchete “Sem-abrigo mancham cidade turística”.
Na reportagem, são tecidas considerações espantosas como a mendicidade “constitui um mau cartaz para a cidade” e que esta “não é uma imagem que se apresente naquele que foi considerado o melhor destino insular do mundo”.
A jornalista refere que há mendigos que usam “estratagemas rebuscados”.
Leia-se bem…
“Estratagemas rebuscados” para sacar dinheiro aos madeirenses de bom coração e aos visitantes que gostam de animais.
Os sem-abrigo também são bons atores, pois fazem uma “espécie de teatro” e os estrangeiros até tiram fotografias. Neste infeliz artigo, se é que se pode chamar aquilo de artigo, a jornalista dá eco ou distorce as palavras de pessoas que dizem que os mendigos se apoderaram dos bancos de jardim, que deveriam procurar um “lugar mais recatado” para dormirem. Mas ao que parece não só não falou com nenhum mendigo como ainda as fotografias foram tiradas aos visados na reportagem à revelia dos mesmos.
Mas isto ainda fica pior.
Depois de 16 associações nacionais repudiarem – e bem – a reportagem pelo seu carácter discriminatório, dizendo que aquela contribuiu para o reforço de uma imagem estereotipada das pessoas em situação de exclusão social, como é o caso dos sem-abrigo, o Diário disse que daria uma resposta oficial no Domingo.
Ora, no Domingo, o Diário fez tudo menos um ato de contrição. Não admitiu que, apesar das melhores intenções, a reportagem não saiu da melhor forma, que aquele não foi o melhor ângulo para abordar uma questão delicada como a dos sem-abrigo.
Não admitiu que não deveria ter fotografado os sem-abrigo.
Ora no Domingo, o Diário não só bateu na mesma tecla com foi ainda mais longe numa Nota da Direção, dizendo-se alvo de uma acusação “absurda e desonesta”.
Pior, na manchete, mistura tudo. No mesmo pacote entrou sem-abrigo, pessoas com dificuldades e, imagine-se, abate de animais!...
Lá dentro, a jornalista insiste no erro. Distorce aquilo que o Roberto Santa Clara diz, aproveitando o que quer para construir uma narrativa preconceituosa.
Mesmo depois do homem da AP Madeira dizer que essas questões não são o mais importante na imagem do destino, a jornalista vai insistindo até que consegue arrancar o óbvio: “estou certo que não é este o tipo de experiência que se pretende promover e conceder ao nosso visitante”. Mais à frente,  “estes casos acabam por, em algumas situações, originar uma menor limpeza, alguma perturbação social… que incomodam os nossos visitantes.
Querido DN, eu passo a explicar. Não há este ângulo discriminatório, absurdo e vil. Não há aqui ângulos que justifiquem o que foi feito. O ângulo são sempre as pessoas. Ponto.
E se a jornalista, presumo que pouco experiente, poderá ter-se entusiasmado com tanta visibilidade, caberia à direção daquele centenário matutino ter um nadinha de bom-senso e admitir que errou. Ainda para mais, quando tiveram uma semana para pensar no assunto.
Ficava-vos melhor um pedido de desculpa. Toda a gente erra uma vez na vida. Mas já não há carácter, humildade nem seriedade nessa casa e não me venham com a treta que é um jornal centenário e mais uma data de balelas. Nessa casa só há o tico e o teco.
Valha-nos alguém que usa a cabeça e rege-se por valores mais elevados, como as 16 associações que repudiaram a sequência de barbaridades escritas nesse matutino. Valha-nos as pessoas que ficaram chocadas com o que viram escrito por essas bandas da Fernão Ornelas.

Finalmente, só quero dizer que amanhã o presidente da República vai almoçar em casa de um casal ex-sem-abrigo.
Miguel Costa

17 comentários:

Anónimo disse...

E a prova provada de que quarenta anos depois de abril esta continua a ser a terra mais atrasada do país e o actual controlo do DN pelo poder político envergonha o jornalismo e a isenção talvez por isso surjam coisas destas a imagem e semelhança de uma renovação sem conteúdo que por aí se apregoa

Anónimo disse...

Ricardo Oliveira tem um neurónio tico. O Agostinho tem um neurónio teco.
O Câmara tem um neurónio... chamado cifrão. Força! Vão no bom caminho!

Anónimo disse...

O que o DN pretende é receber uns trocos nem que para isso tenha que esconder as vergonhas desta cidade ,Sobre deontologia desses senhores estamos falados.
Agora com o Brexit o Blandy pretende de novo encher o saco a custa dos Madeirenses , se os antepassados já o fizeram com Salazar os atuais continuam com Cafofo

Anónimo disse...

Quando se fala tanto no desgoverno é. Tempo de associar a este claramente sem rumo tb uma entidade ate ha pouco referencia, o DN, que navega proporcionalmente da mesma forma. Temos um Desviario .meus senhores a Madeira é Uma Nau Catrineta.

amsf disse...

Todos erram e erraram mas parece que este sr. Miguel Costa também está a falar de um sem abrigo mítico. Existem muitas formas de se chegar a essa situação mas suspeito que bem poucas situações haverá em que a culpa é de toda a sociedade menos da pessoa em causa. Quando não se conhece a natureza humana pode-se desenhar o que se quiser no ar...

Anónimo disse...

Falta espinha dorsal ao Tico, Teco e ao Cifrão.

Anónimo disse...

Ser centenário não é garante de qualidade e insenção. O que temos visto nos últimos meses, neste era da pós-verdade, é a senilidade a acentuar-se naquela casa.

LG disse...

EXCELENTE texto. Só uma achegazinha, pois na minha opinião nem há ao mesmo tempo TICO E TECO, se hÁ o Tico não há o Teco, se há o Teco não há o Tico e em alguns artigos nem uma coisa nem outra.Enfim uma desgraça...

Anónimo disse...

Sinceramente não percebo este texto do Miguel Costa. Então o DN não tem defendido e lutado pelas causas sociais? Vejamos. Acolheram o refugiado Glésias. Dão guarida ao politicamente sem-abrigo Cunha e Silva. Varreram os queques do CDS das folhas do jornal. Oferecem cafézinho na Fernão Ornelas e tintol no Casino. Promovem actividades lúdicas e desportivas para toda a população... Se isto não é defesa social, não sei o que é...

Luís Calisto disse...

Senhoras e Senhores
Não levem a mal este pedido: que os comentários tenham em consideração o respeito devido às instituições; e que os assuntos concretos tenham prioridade sobre a fulanização das ideias e dos comportamentos. Não custa nada envernizar os desabafos, por mais que apeteça explodir, salvo seja.
Se puder ser, caros Amigos/as, agradeço.
LC

PS - Fica subjacente a explicação do 'congelamento' de uma infinidade de 'farpas' que aqui já chegaram.

Anónimo disse...

O DN já foi um bom jornal. O JM também já foi.

Anónimo disse...

Calisto, como já escrevi por aqui em tempos, como poderemos respeitar uma instituição, se os próprios funcionários não o fazem?
Desde erros ortográficos às centenas, erros de semântica e sintaxe. Erros de casting. Erros de submissão e de suborno (no bom sentido, se é que isso é possível)...
Enfim, já vi que o meu comentário anterior não vai ser publicado. Será que este está polido o suficiente?

Anónimo disse...

Caro Calisto, vou tentar 'envernizar a prosa, até porque não está em causa a instituição DN mas a agenda politica-economica de quem actualmente decide o alinhamento editorial do jornal.

Vamos lá ver se este comentário não vai ao 'congelador'...

Parece-me óbvio e consensual, que a qualidade do DN desceu bastante nos últimos tempos. O leitor perde-se no meio daquelas páginas soltas sem qualquer coerência. Os titulos (e manchetes) são empolados e muitas vezes não correspondem ao texto ou esgotam-se no primeiro parágrafo.

O site é um 'clickbait' de Ronaldos e namoradas, imagens aéreas da Madeira e outras coisas que vão buscar à net. Sem contar com aquele provincianismo baboco dos videos sobre as visitas que um qualquer zé-da-esquina continental faça à redação.

E depois, mais grave, é a perda de independência face ao poder económico. Qual foi a última vez que foi publicado uma notícia sobre alguma problema no Funchal. Irra, é que nem um buraco na estrada para disfarçar. Um sinal de trânsito partido. Nada...

Luís Calisto disse...

Obrigado pela compreensão, caro Leitor.

Anónimo disse...

O Dnoticias para além de tudo o que é apontado, é extremamente pobre, diria mesmo rasca. Não admira que o povo que só lê aquilo, seja tão acéfalo, acrítico, diria mesmo, rústico. Mas se calhar é mesmo isso que se quer, de forma a que o status quo desta região se mantenha tal como tem sido ao longo dos anos.É tudo um logro, veja-se, o próprio nome - renovadinhos - tem qualquer coisa que sugere mais do mesmo, ou seja, alguma coisa de novo em cima do velho. A realidade é que podemos agora comprovar, que o velho mantém-se e o novo que apareceu, é péssimo.
O Dnoticias também não mudou agora de repente. O que aconteceu é que perdeu todo o decoro, toda a vergonha que que disfarçadamente ainda se balizava por mínimos deontológicos.

Anónimo disse...

E que tal "uma bica com..." um sem-abrigo?

Miguel Silva disse...

"Finalmente, só quero dizer que amanhã o presidente da República vai almoçar em casa de um casal ex-sem-abrigo."
O Presidente da Republica, em vez de cantar com o Tony e o Mikael, e dar abraços, e ir a cada de ex-sem-abrigo, devia executar a sua função de garantir "o regular funcionamento das instituições democráticas". Eu já escrevi ao senhor Presidente da Republica, nem se dignou responder (infrigindo a lei).
E só acrescento que manteve em funções o Representante da Republica e que aqui na Madeira os diretores regionais são nomeados sem ser por concurso público.

Uma das poucas coisas em que eu e o senhor Presidente concordamos, é que vetar uma lei para benefício dos portugueses não lhe dá tantos votos como cantar com o Mikael e chorar com quem perdeu tudo...