segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Reflexão


A síndrome do sapo fervido 
no ensino profissional 



Por Vitorino Seixas


“Segundo a OCDE, 65% das crianças de hoje terão empregos que ainda não foram inventados”. Esta citação, feita pelo Presidente da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional (ANQEP), no seminário “Perspetivas de futuro do ensino profissional no espaço europeu, nacional e regional” ¹, pretendia alertar os responsáveis das escolas profissionais da RAM para um dos desafios que o ensino profissional terá de enfrentar nos próximos anos.

No entanto, perante a magnitude do desafio identificado pela OCDE ², pouco se falou sobre o que fazer para enfrentar este desafio, nem sobre o que a ANQEP já está a fazer. Pelo contrário, fiquei com a sensação de que tudo está bem, apesar do modelo de ensino profissional ter nascido na era AI (Antes da Internet) e de, entretanto, o mercado de trabalho ter sofrido profundas alterações, com destaque para a crescente procura das novas competências exigidas pelos empregos que vão sendo inventados. Para o Presidente da Associação Nacional de Escolas Profissionais (ANESPO) o ensino profissional é de qualidade pois “todas as escolas foram criadas por necessidades do mercado” ³ e as empresas reconhecem essa qualidade como o comprovam as altas taxas de empregabilidade dos formandos.

Por outras palavras, o seminário centrou-se mais nas dificuldades presentes do financiamento das escolas profissionais devido à inoperância da plataforma informática de suporte às candidaturas ao Madeira 14-20, do que nas perspetivas de futuro do ensino profissional, o tema central do seminário. Não deixa de ser estranho que, estando presentes os responsáveis das escolas profissionais da RAM, se tenha desperdiçado uma excelente oportunidade de fazer um debate prospetivo sobre o ensino profissional na RAM e de apresentar, aos membros do governo regional presentes, propostas no sentido de adaptar a rede regional de ensino profissional à era DI (Depois da Internet).

Além do desafio dos empregos que ainda não foram inventados, há também o desafio identificado por Carl Frey: “47% das profissões correm o risco de desaparecer no espaço de duas décadas” ⁴ devido à inovação tecnológica. Este estudo é um contributo muito importante para o debate sobre o futuro do ensino profissional, pois identifica as profissões onde há maior risco de automatização, ou seja, as profissões onde é elevado o risco do trabalho deixar de ser feito por pessoas e passar a ser feito por autómatos, como aconteceu com o Multibanco. Neste caso, o desafio é o da reconversão dos trabalhadores cujos empregos são extintos, sob pena do desemprego estrutural continuar a subir pois as competências destes trabalhadores não têm procura no mercado de trabalho.

Neste contexto, qual o caminho a seguir? Não sei e não acredito que alguém tenha uma bola de cristal que permita prever o futuro do ensino profissional. Mas, não saber não significa ficar de braços cruzados. A solução passa por todas as partes interessadas no ensino profissional juntarem as suas capacidades e iniciarem a construção de um caminho sustentável em termos pedagógicos e financeiros para o ensino profissional na RAM.

Para este debate a OCDE sugere algumas questões: Como preparar a força laboral do futuro? Qual será a combinação de competências técnicas de gestão e de comunicação exigidas? Como garantir que os trabalhadores menos qualificados e de maior idade se preparam e se adaptam a um mercado de trabalho mais exigente e competitivo?

Por mim, como ponto de partida, acrescento a questão: Se a economia é cada vez mais digital, se as crianças de hoje são nativos digitais, se vivemos na era da “Internet das Pessoas” e estamos a iniciar a transição para a “Internet das Coisas”, será que o modelo analógico do ensino profissional conseguirá superar os desafios das novas qualificações e dos novos empregos?

Para terminar, uma história sobre mudança. Estudos biológicos demostram que se pusermos um sapo numa panela com água a ferver este pula de imediato para fora da panela. No entanto, se pusermos um sapo numa panela com a água do seu lago, este fica dentro da panela mesmo quando aquecemos a água até ferver, acabando por morrer. Ou seja, o sapo adapta-se gradualmente à mudança de temperatura da água e, sem dar por nada, morre inchado e feliz. Moral da história: É melhor mudar com dor, do que ser um “sapo fervido” feliz.

Será que os responsáveis das escolas profissionais e da ANESPO já se deram conta de que a água está prestes a ferver? Se não pularem fora do paradigma atual do ensino profissional, arriscam-se a ser “sapos fervidos”.

¹ Seminário “Perspetivas de futuro do ensino profissional no espaço europeu, nacional e regional”
² “OECD Ministerial Meeting on the Digital Economy”
³ “Presidente da ANESPO alerta para consequências de menos nascimentos”
⁴ “The future of employment: How susceptible are jobs do computerisation?”

3 comentários:

Anónimo disse...

E que pensa a secretaria da Inducaçao sobre o assunto.?o que vi foi lamentos e choros sobre a inoperancia da plataforma.

Anónimo disse...

E o que pensa o dr. Vitirino sobre a governação autárquica e nacional? Nem uma análise, nem uma reflexão, nem uma crítica? Estranho que os textos do dr. Vitorino se esgotem na area da governação regional.

Anónimo disse...

Esta Inducaçao regional serve apenas p certificados e protocolos redundantes e sepre com os mesmos... Isto e para navegar a vista como hoje se ve no DN pelas salas que foram dadas e tiradas numa escola. Caso a coisa vire polemica volta.se atras para nao fazer ondas. Muita consistência politica e decisória, de facto e isto numa matéria de grande carater educativo.