domingo, 12 de fevereiro de 2017

O Santo



O Conflito


O Conflito[i] é algo inerente à Vida: muitas experiências e coisas são únicas e são impassíveis de serem partilhadas. O exemplo mais comum é a Alimentação: se a presa não for caçada o predador morre de fome. Mesmo na existência humana, muitas coisas não são partilháveis, tais como o emprego, o cargo, o subsídio, o título de melhor, aquele período de tempo, por mais que certas religiões tentem impor o valor da cooperação. Dizem que outras religiões tais como o Islão mostram que o caminho da Vida é o Combate (jihad), tal como Heráclito:
saber que o Combate é comum, a Justiça é o Conflito e todos os seres surgem através do Conflito e da Necessidade"
Heráclito, frag. 80 D.K.

Para mim é claro, sem Conflito não há Justiça; sem Oposição não há Existência[ii].
Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. 35Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; 36de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares.”
Mateus X, 34 -36
Assim, a interpretação desta passagem da Bíblia é a declaração de Jesus que vem trazer a Justiça, não a Paz.

O conflito é o resultado da competição entre grupos ou indivíduos sobre uma qualquer coisa. A esmagadora maioria das vezes, essas coisas em disputa não são partilháveis ou as utilizações dessas coisas não podem coexistir simultaneamente[iii].
Nos casos em que poderá existir uma coexistência simultânea de utilizações, a competição poderá degenerar numa cooperação, por via de uma negociação.
O homem diariamente gere conflitos: decidir é escolher qual (ou quais) das opções compatíveis ou não entre si que irão ser vividas ou feitas. Sobre o início do conflito já falei noutro sítio.

O Decisor tem que admitir que por vezes é preciso guerrear (i.e., impor a paz nas condições do Decisor):
Mas o sábio, dirão, só empreenderá guerras justas. Como se tivesse de deplorar, caso se recorde que é homem, muito mais o facto de ter de reconhecer a existência da guerra mesmo justa – porque, se não fossem justas, ele não teria de as empreender e, desta forma, para o sábio, jamais guerra alguma haveria. É, na verdade, a iniquidade da parte adversa que impõe ao sábio que empreenda a guerra justa. Mas essa iniquidade, porque é dos homens, ao homem tem que ser dolorosa, mesmo que dela nenhuma necessidade de empreender a guerra nasça. Portanto, estes males tamanhos, tão horrendos, tão cruéis, todo aquele que com dor reflete tem que confessar que são uma desgraça; mas todo aquele que os suporta ou neles pensa sem dor na alma e continua a julgar-se feliz, esse caiu numa desgraça muito mais profunda, porque perdeu o próprio sentimento humano.
Santo Agostinho Cidade de Deus
Resumindo também o Virtuoso guerreia: suas batalhas são justas (pois é preciso combater as injustiças).

Volto a repetir, por vezes é preciso combater… e injustiças gerais tendem a afetar particularmente todos os indivíduos:
"A experiência parece ensinar que, no interesse da paz e da concórdia, é conveniente que todo poder pertença a um só. Nenhum Estado, com efeito, permaneceu tanto tempo sem nenhuma alteração notável como o dos turcos e, em contrapartida, nenhuma cidade foi menos estável que as cidades populares ou democráticas, nem onde se tenham dado tantas sedições. Mas se a paz tem de possuir o nome de servidão, barbárie e solidão, nada há mais lamentável para o homem do que a paz. Entre pais e filhos há certamente mais disputas e discussões mais ásperas que entre senhores e escravos e, todavia, não é do interesse da família, nem do seu governo, que a autoridade paterna seja um domínio e que os filhos sejam como escravos. É, pois, a servidão, e não a paz, que requer que todo poder esteja nas mãos de um só; tal como já dissemos, a paz não consiste na ausência de guerra, mas na união das almas, isto é, na concórdia."
ESPINOSA: Tratado Político.

Montesquieu por seu lado defende:
“Mas, entre as sociedades, o direito à defesa natural leva às vezes à necessidade de atacar, quando um povo percebe que uma paz mais prolongada colocaria outro Estado em condições de destruí-lo e que o ataque é, neste momento, o único meio de impedir esta destruição. Segue-se daí que as pequenas sociedades têm o direito de fazer a guerra com mais frequência do que as maiores, porque se encontram com maior frequência no caso de temerem ser destruídas.
O direito à guerra deriva então da necessidade e do justo rigoroso” .
Montesquieu, espírito das leis


Eu, O Santo



[i] Conflito no sentido de disputa.
[ii] Pior, sem conflito há uma “Paz Podre” em que os indivíduos concentram-se em “não ser quem são”. Que coisa haverá mais i-sagrada que esta?
[iii] Exemplo. Um terreno não pode ser mantido virgem, servir para a construção de uma casa ou ser um jardim simultaneamente, embora só interesse ser virgem de manha, ser moradia à noite e jardim à tarde.

Sem comentários: