quinta-feira, 28 de junho de 2018



Parceiros e parcerias




Rui Nogueira Fino


O enredo eleitoral do próximo ano parece estar já praticamente definido. Vai prosseguir, e por motivos cada vez mais pesados, a nunca terminada discussão sobre a Autonomia, que o optimismo de alguns e a ingenuidade de outros pretendeu a certa altura adocicar, como se fosse possível gerar consensos com o Terreiro do Paço sem um quadro de confrontação latente ou mesmo confronto prévio. Mas sobre a mesa da disputa eleitoral vamos ter com certeza outro tema igualmente estruturante da vida regional: aquele que diz respeito ao futuro e integridade da nossa democracia representativa.
É claro que se há-de falar da Saúde e dos Transportes, do dinheiro que nos falta e dos impostos que nos vergam, da maior ou menor sustentabilidade da nossa economia, da companhia aérea de bandeira que nos explora e deixa em terra, quem sabe se do Monte ou da dispendiosa paranoia panfletária de um candidato imposto por Lisboa, da capital de contrastes cada vez mais pronunciados onde o comercio tradicional fenece, as esplanadas florescem em cada centímetro quadrado de passeio, as zonas degradadas degradam-se na desgraçada melancolia do desleixo camarário, e o betão volta a crescer graças ao solícito, generoso e certamente desinteressado beneplácito municipal de mandantes, mandaretes e personagens afins.

Mas a democracia representativa, meus senhores, essa admirável construção política através da qual o povo soberano exerce o poder por intermédio de representantes devidamente mandatados, é isso que afinal vai estar verdadeiramente em jogo. Porque nunca como agora o poder político regional suscitou o apetite de tantas alianças, parcerias e coligações, que começam em negociatas locais, passam pela chancela decisora do eixo Rato - S. Bento, e vêm desaguar na praça funchalense do Município, que bem poderia por esta altura chamar-se do comércio. Mas sobretudo porque há forças que, actuando nas margens da democracia formal, operam claramente no sentido de substituir o primado da política pelo primado dos negócios.
Afirmação abstrusa, dirão prontamente os entusiastas das virtualidades formais da democracia representativa e das respectivas válvulas legais de segurança. E lá discorrerão sobre as eleições que ano após ano decorrem sem mácula ou reparo que se conheça. E lá fulminarão, do alto das suas evidentes certezas, o meu desavisado dislate com o argumento irrefutável e esmagador de que as instituições que politicamente nos representam funcionam regularmente. E arrematarão com o argumento inquestionável de que as democracias a sério acabam sempre por dotar-se de mecanismos formais e informais de escrutínio e controlo.
Nada mais certo, não me custa reconhecê-lo, embora recuse dar a mão à palmatória do pantanoso formalismo reinante. Porque, de facto, não só as eleições têm sido limpas, para tranquilidade geral, como as instituições que delas resultam lá vão funcionando como a lei e os costumes determinam. A maçada é que em todas as sociedades, e na nossa em particular, a democracia representativa é confrontada muitas vezes com ameaças capazes de a minar, com desafios susceptíveis de a perverter.
Ora, deixem-me que vos diga que, em matéria de ameaças à democracia representativa, nunca vi antes nada assim: um candidato sem partido vai concorrer a uma eleição de partidos apoiado em jornais e outras centrais de negócios, e por alguma razão amparado por um poder central que, pelos vistos, a propósito da Madeira, só intervém onde e quando não deve. É comparar o que não faz para acabar com o escândalo diário do transporte aéreo, que noutro país seria assunto de repercussão nacional, com o afã com que se intromete na política da Região. E é ver o que por aí vai em matéria de alianças.
De facto, no caso particular da Madeira, essas ameaças já nem se dão à maçada do pudor. Andam às claras, usam voz grossa e cores berrantes, e não têm sequer a decência de, ao menos, fingirem que se escondem por detrás da cortina que protege as verdades inconvenientes. Falo, como é evidente, das engenharias partidocráticas comandadas por despacho a partir da capital do império, a pedido, já se vê, de três ou quatro notáveis de cá. Refiro-me à captura do maior partido da oposição por interesses que, não sendo imediatamente políticos, nem se dignam ir a votos. Aponto os alinhamentos político-empresariais que por aí se organizam com óbvias e ilegítimas tentações de poder, e, claro, bem longe do sobressalto ou do escrutínio dos que há anos vêm fazendo vida misturando proclamações, cinismo e negócios. E sim, falo igualmente dessas curiosas relações político-mediáticas, ou mediático-políticas, que o divertido sentido de humor de alguns jocosamente apelida de parcerias.
Parceria. É esta, de facto, a entidade política mais interessante e actuante do momento entre nós. Porque, como se sabe, as parcerias fazem e fazem-se de parceiros. Seja para excursões a capitais estrangeiras ou para festarolas de trazer por casa. Seja para páginas de exaltação de feitos notáveis que ninguém vê, na esteira das fake news que animam o debate noutras paragens e que por cá não se escrutinam. Seja para o mal explicado desfile mediático dos artífices dessa espécie de poder underground que pacientemente se forja no conforto atapetado de alguns gabinetes empresariais. Seja para arregimentar cada vez mais parceiros. Seja finalmente para fortalecer a parceria, ou não fosse ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Parceiros, portanto. É isso que teremos no poder desta terra se esta espécie de anestesia mediática vier a surtir o perverso efeito desejado. Parceiros na política, nos negócios, e, já que as mãos se lavam uma à outra, no negócio da política. E a encimar tão laboriosa pirâmide luzirá uma parceria, como eles lhe chamam, que não vai a votos, que despreza tanto eleitores como eleitos, que não reconhece a cidadania alheia, e que tem da democracia representativa a ideia de que melhor fachada não pode haver para um poder cuja pretensão é legitimar-se a si próprio sem maçadas eleitorais, ou então manipulando o voto popular pela força da palavra não contraditada.
Pode ser exagero. Mas confesso que nunca vi nada assim. Um jornal patrocina um político que, por sua vez, patrocina um jornal, cujo agrega, por sinal, alguns dos empresários mais relevantes da terra, todos, é claro, devidamente aparceirados nessa espécie de irmandade político-empresarial que a si própria se chama parceria, e sonha de olhos bem abertos com a conquista suprema de um dia subordinar o poder político aos ditames do poder económico. A questão é saber se este deixa.

4 comentários:

SIA disse...

Estamos quase todos anestesiados, mas o FAKE CAFOFO nao dorme. A estrategia é clara, VAMOS FAZER DE CONTA PARA AS VERDADES E DENUNCIAS E MOSTRAR QUE ESTÁ TUDO BEM, SORRINDO MUITO. O DIARIO DE NOTICIAS PUBLICARÁ O QUE ESCREVEMOS COMO SE FOSSE O JORNALISTA A ESCREVER E ESCOLHERÁ AS MELHORES FOTOS,
Depois aparecer o maximo, seja com apresentaçoes de bebidas, de festas, de jogos, qualquer coisa que dê uma foto, na sala de reunioes da Camara.
A proposito aonde vai Fake Cafofo este fim de semana e mais uns dias? E o vice?
Esta Câmara paga tudo.

Anónimo disse...

As eleições municipais surgiram como um campo aberto de possibilidades para reflexão sobre a dinâmica política local. O acontecimento eleitoral utilizou o apoio dos jornais como condição para manutenção ou conquista de bons índices de popularidade, constituindo-se em anunciantes, patrocinadores fundamentais para a sobrevivência dos interesses das empresas "jornalísticas". A situação continua. Vivemos na era da chamada prostituição mediática. E o povo? Está anestesiado.

Anónimo disse...

Este senhor não se fartou de passear com o seu cunhado mamado?
Vota PS e Banif a ver se ainda agarras o comboio...
Para engraxador já há muitos que sobem e descem a avenida do infante para fazerem a vénia ao penteadinho blue

Anónimo disse...

Os jornais de agora estáo submetidos ao poder economico como antes o JM estava sob as ordens do Quebra costas com a conivencia dos seus administradores e diretores.