Powered By Blogger

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Bagunça Rumo a 2019






VINTE E SEIS



À entrada para o último quartel do século XIX, os legisladores régios decidiram retomar o projecto, em tempos tentado sem sucesso, da criação de umas chamadas juntas de paróquia. Tratava-se de compensar o abandono a que muitas câmaras votavam as freguesias. Fazia sentido na Madeira. Mas o povo, orientado pelos ressabiados da época, reparou num aspecto importante: quem iria pagar os vencimentos e as loucuras do costume de quem entrasse para os novos órgãos? De onde cairia a receita das famigeradas juntas? Do próprio povo, pois claro, que levaria com mais uma pancadaria de impostos em cima. 

As coisas já de si andavam azedas na cidade e pelos campos. O 'Madeira' baixava de produção por causa das pragas da vinha, cana-de-açúcar quase não havia, Lisboa carregava nas taxas alfandegárias e portuárias, afugentando os navios para o largo; em muitos casos, a saída era vender a vaca mais o palheiro e o explorado meter-se nos veleiros superlotados a caminho das Américas, a ver se lá chegava com vida.
Perante a ameaça de mais impostos para a receita das juntas de paróquia - chamadas pelo povo juntas de 'parreca' -, a populaça carregou à paulada sobre quem estava mais a jeito dentro das dependências de Finanças, notários, sacristias, onde a 'parreca' pudesse estar a ser instalada - e vai disto, a eito. Tudo o que cheirava a funcionalismo público, vergalhada velha. Apanhavam o justo e o pecador.
A tropa meteu-se, matou e sofreu baixas. Uma carnificina.
Se os meus conterrâneos 'verdinhos' soubessem o massacre que se deu então no Caniço, voltavam à pressa de Santa Cruz para a nossa linda Gaula, o Élvio para estudar melhor as amoras, o Filipe a tentar uma central de camionagem no Pico e eu de enxada na mão em plena Achada de Baixo, onde nasci. Se a minha Amiga Célia também imaginasse como foi na Ponta do Sol, dedicava-se definitivamente à editora, em vez de andar naqueles jogos paroquianos que ainda vão dar torto, mesmo sem 'parreca' à vista. 
Sim, morreram soldados e populares, contudo as juntas de paróquia não entraram em vigor. 
Já não sei a que propósito vem isto. Ah, sim, é por causa das nomeações atrás de nomeações na Tabanca actual, como se vê hoje na imprensa outra vez. Vem a propósito por causa das autênticas centrais de emprego que se multiplicam e engordam de tachistas - sempre com os mesmos a gemer a pastilha e os impostos, salvo seja. 
Os nossos antepassados do século XIX haviam de ver, no seu tempo, o cabo da freguesia ou sua excelência o sr. presidente da câmara rodear-se de secretárias bonitonas, adjuntos e adjuntas, assessores e assessoras, condutores de corsa e carro-de-bois para as suas deslocações, uns quantos vilões das redes, levadeiros particulares e portadores de lanternas. Ou então haviam de reencarnar hoje e ver o lindo serviço que temos aí. A carga de vadios que nunca trabalharam na vida, a viver à grande sem fazer a ponta de um chavelho - deixando mal os que trabalham honestamente. Se viessem, a carga de paulada começaria na Ponta do Pargo, dava a volta à ilha e entrava pelo  parlamento dentro para escaqueirar as cadeiras desnecessárias, cerca de metade.
Seria bonito quando soubessem que continuam a meter gente nas centrais de vadios enquanto o chefe das Angústias anda de carro todo repimpado, para cá e para lá, visitando obras em capelas, lanchando com velhinhas e estudando propostas para mudar o nome de escolas. Ao menos podia ajudar o Pedro Calado, evitando as 'contratações' de especialistas quase diárias que o D. Sebastião vem fazendo.

9 comentários:

Anónimo disse...

Esta última contratação da Enf. Ana Clara é uma total desautorização do secretário da saúde Pedro Ramos.
É Calado a dizer a Ramos "eu não confio em ti, mas como não te posso substituir, nomeio esta para me fazer relatórios diários". E pode o vice dar as voltas e justificações que quiser, porque não consegue dar resposta a uma questão sem nos fazer rir: porque raio é que o vice-presidente precisa de um especialista em saúde no seu gabinete ?
Se a nomeação da senhora fosse para a secretaria que tutela a saúde, ainda se comprendia. Mas para a vice-presidência ?
Para quem tem a coordenação política do governo, parece de uma grande falta de jeito para a dita coordenação.
Assim não Pedro, assim não. É pedir ao senhor do Quebra-Costas uns conselhos. Ao menos destas coisas ele percebe.

Luís Calisto disse...


É uma guerra de Pedros, uns Calados, outros às Claras, outros aos galhos.
É uma piada amarela, mas a situação não merece mais.

Anónimo disse...

Sr Luís Calisto,
Não gosto própriamente de Si (da sua forma "lombrigosa" de ser) mas o artigo está muito bem escrito!

Luís Calisto disse...

19.56

Não sabia que alguém, incluindo os meus mais ácidos inimigos de estimação, me julga um verme/parasita, que é o que significa essa "forma 'lombrigosa' de ser" constante do comentário.
Ora!
Não ataco ninguém sob anonimato, porque aí sim, seria um verme dos mais nojentos que andam a conspurcar as próprias fossas onde se movimentam.
Não escrevo para viver à custa de expedientes, porque aí seria um parasita da pior espécie e não assinaria nada para poder continuar a receber e a ofender sem ser reconhecido.
Finalmente, actuo em coerência com o meu pensamento, sem parecenças com as lombrigas que serpenteiam nas entranhas da vítima, ora para um lado, ora para outro - presumo.
Gostaria de inquirir directamente quem me atribui uma "forma 'lombrigosa' de ser", mas, digam-me os Leitores, como localizar quem, pelo recurso ao anonimato, actua de uma "forma lombrigosa de ser". Lombrigosa e covarde.
Só para terminar: sou pecador e portador de defeitos como toda a gente, mas não desenvolvo actividades intestinas, actuo completamente à vista.
LCalisto



Anónimo disse...

Acho que ainda foi muito benévolo no seu excelente artigo. Metade das cadeiras do parlamento ainda são demais, para os incompetentes que andam por lá!

Anónimo disse...

Sr. Luís Calisto,
Estar a comentar como anónimo não é uma forma lombrigosa de ser, mas sim uma forma de poder comentar.
Vivemos numa ilha muito pequena, onde muita gente grande é mesmo muito pequena no espírito. "Dar a cara" num comentário para quem trabalha no governo ou em empresas que fazem serviços ou fornecem bens para este bendito governo é o primeiro passo para ser despedido, encostado ou colocado na prateleira.
É o medo institucional que se gerou durante 40 anos de democracia.
Não invalidando o que acima referi, achei de muito mau gosto o comentário do Anónimo das 19:56,pois uma coisa é ser anónimo outra é ser malcriado.

Anónimo disse...

E hoje no seu Renovadinhos, Cardoso Jardim atira-se ao uso da cannabis para fins terapêuticos.
Aconselhamos o nosso Bokassa a fumar uma bela ganza. Verá que até a universidade de verão do bar do Henrique ficará esquecida.
Faça terapêutica camarada. Faça terapêutica.

Anónimo disse...

Já que se fala de especialistas nomeados para gabinetes políticos, que dizer da nomeação de um licenciado em educação física, sem qualquer passagem relevante pelo serviço público, para a Secretaria Regional da Inclusão, ou de um especialista em diversos depois de um especialista em canalizações e tubagens, para a Secretaria da Agricultura e de um especialista em palmeiras e iluminações para a Secretaria do Ambiente. Enfim, a lista é infindável e se continuar pelos diretores regionais e membros diretivos de institutos e empresas públicas que não fazem nem nunca fizeram a menor ideia consistente sobre os temas e assuntos que estão a tutelar, então é de bradar aos céus e deitar as mãos à cabeça. Tudo obra deste governo de Miguel Albuquerque.
Não admira que a generalidade dos funcionários das administração pública regional não tenha, hoje, um pingo de consideração ou respeito pelos dirigentes e secretários que lhes têm sido impingidos. Trabalham, a mais das vezes o melhor que podem, apesar de todas as asneiras que vêm ser cometidas por quem supostamente deveria dirigi-los, por brio pessoal e profissional e por respeito e consideração aos cidadãos e utentes. São esses, que ao cartão de boas festas do suposto presidente do Governo vindo tarde, a más-horas e a completo desproprósito, respondem: "vai mas é trabalhar; ou embora; ou , melhor ainda, trabalhar para ir embora!"

Luís Calisto disse...

00.51

Sim, de acordo. Por isso é que os comentários anónimos são publicados.
Refiro-me aos que se escondem no anonimato não para contribuírem para o debate com as suas opiniões (numa terra difícil), mas para achincalharem os outros sem o risco de ser atacados.
No mais, repito, de acordo.